Por Machado de Assis (1877)
A lisonja tem uma virtude rara; Camila, ouvindo o cumprimento de Silvestre, sorriu e parou. Foi a primeira vez que Silvestre atreveu-se a olhá-la de rosto, mais de um minuto. A atitude da moça, sua beleza característica, a expressão do olhar, tudo parecia próprio a impressionar um artista. Silvestre ficou literalmente fascinado; e Camila sentiu a impressão que lhe produzia.
— Pois bem, disse ela; consinto em esperar, procure alguma coisa digna de meus olhos... Meus olhos são bonitos?
— Oh! muito!
— Criança!
E dando uma volta ao corpo, Camila saiu da sala, desceu a escada, deixando o pobre rapaz ainda enlevado daqueles poucos minutos de conversa. Ergueu-se o filho do procurador e foi contemplar o mar, da janela aberta, com a cabeça cheia de todos os seus sonhos. Uma voz lhe dizia dentro:
— É esta a Vênus; este é o modelo da tua obra imortal. Tua visão incorporou-se, fez-se mulher, falou-te e ouviu-te. Tens a deusa; podes expulsá-la de teu espírito, que é o céu pagão. Eia! ao trabalho! transmite enfim aos homens o pensamento que te faz viver. Quinze anos tinha, mas sentiu-se homem naquela suprema ocasião. Nessa mesma tarde cuidou de lançar ao papel os primeiros lineamentos do esboço. Não pôde; não se dominava ainda bastante. Mas não desanimou; trabalhou parte da noite a reproduzir a atitude e a expressão da figura, tais quais as tinha na mente. No dia seguinte estava pronto o trabalho preliminar. Pronto? Ele o desfez e inutilizou, como indigno do seu modelo. Não era ainda aquilo; quase desanimado, volveu à obra, até que ela lhe saiu perfeita.
Silvestre sentiu as primeiras alegrias da maternidade. O esboço era apenas esboço; não tinha ainda as proporções, a cor, a vida, o movimento; mas era o ovo prestes a soltar a ave misteriosa da sua inspiração. Guardou-o cuidadosamente e cuidou de preparar a tela. Entretanto, Camila não esquecera a promessa do rapaz; não lha lembrava nunca em presença do marido; essa reserva pareceu a Silvestre uma prova de discrição, própria a captar-lhe a confiança. A insistência devia ao mesmo tempo falar à vaidade de Silvestre; não falou, porque ele ainda a não tinha; era cedo para conhecer esse verme do talento.
Durante uma semana, sofismou Silvestre o cumprimento da promessa; a resistência não pôde ir além, e ele cedeu. De seus primeiros trabalhos, todos cópias mais ou menos incorretas, escolheu o que lhe pareceu melhor, era justamente a Harpia que ela lhe surpreendera naquela tarde. Camila recebeu-a com expressões de exagerado entusiasmo, contemplou-a, beijou-a, escondeu-a.
— Promete que não mostrará a ninguém? disse ele timidamente.
— Prometo.
Desse minuto em diante, Camila tornara-se a confidente natural e zelosa do jovem artista; ele lhe dizia suas esperanças, seus planos de futuro; falava-lhe ingenuamente da obra prima com que queria dotar o mundo.
— Mas o que é? perguntava a mulher de Luís Borges.
— Depois verá. Tenho lá em cima a tela em que hei de reproduzir o painel que trago na cabeça; logo que comece a trabalhar fecharei a sala de modo que ninguém lá vá quando eu estiver fora.
— E se eu tiver outra chave?
Silvestre pôs as mãos em ar de súplica. A simplicidade do movimento desarmou a moça. Ela prometeu que não iria surpreendê-lo nunca; mas impôs uma condição.
— Desejo ser a primeira que veja o quadro.
Silvestre respondeu que sim. Nessa ocasião, Luís Borges entrou na sala em que eles estavam; Camila continuou uma história que não havia começado, com tal arte e prontidão, que assombrou o rapaz e lhe tirou os últimos receios. A moça fazia-se cúmplice da glória.
III
Quinze dias depois, o procurador foi à casa de Luís Borges, a fim de ver o filho. Havia dois meses que ele não punha os pés em casa do pai. A mãe receava menos ainda a moléstia do que a ingratidão do filho; o procurador, entretanto, estava de algum modo satisfeito com a ausência do rapaz.
— Venho ver o nosso pequeno, disse ele logo que entrou; minha mulher supõe que tenha havido alguma moléstia...
— Nada há, respondeu o advogado. Está são como um pêro.
— Tanto melhor. E trabalha?
— Muito.
— Bravo! Acostuma-se enfim ao trabalho. Talvez ainda fale da mania das pinturas... Não importa! há de perder a idéia com o tempo.
— Espírito chocho! dizia consigo o advogado olhando para José Vargas; mal sabes tu que preparo talvez a glória do teu nome.
Silvestre desceu a ver o pai, e dispôs-se a acompanhá-lo até a casa. Na rua, interrogado acerca da longa ausência, não achou resposta adequada; não queria confessar as preocupações da arte e repugnava-lhe mentir. José Vargas venceu a dificuldade respondendo logo depois da pergunta.
— Já sei, disse ele; andas atarefado com o trabalho. Não importa! Com ele é que te hás de achar. O foro não dará a todos um palácio; mas com honra, trabalho e economia pode dar honesta abastança...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.