Por Machado de Assis (1872)
Consultou o relógio, olhou para o teto, examinou as luvas, concertou a gravata, levantou se, deu alguns passos, e tornou a sentar-se até que a quadrilha acabou. A sala foi invadida por alguns pares.
Posto que fosse perfeito homem de sociedade, nada o aborrecia mais que o frufru das sedas, o estalar dos leques, o murmúrio das conversações, todos esses rumores de uma festa alegre, que destoavam com o seu espírito reservado e solitário. O fastio começou a invadi-lo; dentro de uma hora, se lhe não tivessem mão, estaria entre os lençóis.
Levantou-se e ia dirigir-se para a outra sala, quando lhe apareceu o pai, dando o braço a Madalena. Marcos chamou-o. Daniel aproximou-se; o velho apresentou o filho à mãe de Augusta.
Daniel recebeu a apresentação com frieza; porém, Madalena foi tão amável que era impossível esquivar-se-lhe. Conseqüentemente, conversaram os três durante algum tempo.
O grupo foi aumentado daí a alguns minutos com a chegada de Valadares que trazia Augusta pelo braço. Nova apresentação e desta vez mais solene para os dois apresentados. Nenhuma palavra foi trocada além do simples cumprimento que Daniel dirigiu a Augusta e que esta ouviu inclinando levemente a cabeça e olhando-lhe para os pés.
Não tinha que ver: aquelas duas criaturas antipatizavam um com o outro. Não se casava a altivez de uma com o orgulho do outro. Era o caso do provérbio: duro com duro... Mas se ambos antipatizavam a tal ponto, nem por isso Daniel deixava de admirar a beleza de Augusta, e Augusta. a desdenhar a severidade de Daniel; e essa mesma admiração os afastava mais; porque a admiração é um preito; e nas poucas e curtas vezes que se haviam encontrado, claramente se percebia em cada um deles a consciência da superioridade.
Não era entretanto do mesmo modo que Augusta olhava para Luís; para este olhava com certa compaixão. Parecia ter pena dele. Quando este lhe falava, ela respondia com bondade e doçura, mas a doçura e a bondade de quem trata com um inferior, o que contrastava com o respeito do namorado político. E, no entanto, o crime dele era simplesmente gostar dela, e havê-la pedido em casamento, ao que ela se escusou, dizendo que era melhor ficarem simples amigos.
Luís não dançava; tinha, como Daniel, a opinião de que a dança é um prazer dos olhos. No fim, porém, de meia hora, Valadares foi ter com Daniel insistindo para que ele dançasse ao menos uma quadrilha, ao que ele recusou. Como estivessem a discutir este importantíssimo ponto, passou Augusta, e Valadares interrompeu-a para dizer-lhe oficiosamente:
— O dr. Daniel incumbiu-me de lhe pedir esta quadrilha para ele.
Daniel mordeu os beiços.
Augusta respondeu olhando para Valadares.
— Mas eu não danço mais.
— Por quê?
— Estou cansada.
Daniel interveio.
— O Valadares, disse ele, pediu-lhe espontâneamente uma honra que eu não ousava desejar, nem esperar.
— Estou cansada, repetiu secamente Augusta, a quem Valadares deu o braço, escapando assim a uma repreensão do amigo.
Daí a um quarto de hora, Daniel desapareceu do baile.
VI
Despontava-lhe já uma espécie de ódio contra Augusta. Seria esse o caminho do amor? Quinze dias depois dos acontecimentos que acabamos de narrar, achava-se Augusta sentada ao piano na casa de Mata-cavalos, quando lhe entrou pela sala dentro a mulher de Valadares.
Começava a moça a usar da liberdade que procurara no casamento.
— Tua mãe? perguntou ela a Augusta, depois dos primeiros beijos.
— Está lá dentro; vou mandá-la chamar.
— Creio que o moleque já lhe foi dizer que eu estava aqui.
— Anda senta-te.
Amélia sentou-se e disse sorrindo para Augusta:
— Não me perguntas por meu marido?
— Ia fazê-lo.
Está na repartição. A primeira coisa em que concordamos, é que eu saísse a passeio quando me parecesse. Eu não sou criança para andar agarrada a meu marido. Na Europa, não se usa isso. Demais, tenho toda a confiança nele . Acho-te pálida hoje...
— Dormi pouco.
— Alguma preocupação?
— Uma enxaqueca.
— Que calor!
— Com efeito, o dia está quente.
Amélia agitou o leque, lançando pelos móveis da casa esse olhar de curiosidade indiscreta que tanta gente emprega numa casa onde entra pela primeira vez, sintoma de uma grosseria sem-par.
Augusta olhava para ela sorrindo.
Nesse momento, entrou Madalena.
— Já de passeio! disse ela, beijando a mulher de Valadares.
— Não é cedo.
— Seu marido está bom?
— Está.
— São felizes, creio.
— Completamente. Ah! o casamento foi a melhor invenção deste mundo. Por que razão não casa sua filha?
— Porque não encontrou noivo.
— Isso é fácil.
— Não tanto, acudiu Augusta; além de que não tenho pressa.
— Pois quanto mais cedo melhor, disse Amélia.
— Augusta, disse Madalena, terá um noivo quando quiser. Agora mesmo...
— Ah! algum apaixonado?...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.