Por Machado de Assis (1867)
— Impossível? pensava Teófilo na manhã seguinte relendo os versos. Não. Basta que ela me ame para que tudo desapareça. Que nos importará o resto?
Teófilo freqüentou a casa do conselheiro. Augusto, a quem Teófilo fez apenas meia confidência, servia de cicerone ao tímido amador.
Sílvia, com esse tato delicado das mulheres, reconheceu que era amada pelo poeta, e, longe de procurar dissuadi-lo, animou-o. Esta animação levou ao espírito do poeta a esperança de ser amado.
Todavia os meios empregados por Sílvia não comprometiam nada no futuro. Podiam dar esperanças, não podiam obrigar. Teófilo não reconheceu essa diferença; amava; tomava o mais insignificante olhar como um jubileu de venturas. Vivia dela, por ela, para ela. Um dia Teófilo sentiu que não podia mais conter no coração o segredo do seu amor. Na amizade confia-se um segredo, diz La Bruyère, mas no amor o segredo escapa. É o que sucedeu a Teófilo.
Achava-se a sós com Sílvia. O conselheiro estava no gabinete em consulta de política, não de política militante, mas de política observadora; entendia o conselheiro que a situação caminhava mal; o amigo entendia que não. Sabe-se como estas discussões consomem tempo. Teófilo estava seguro de não ser perturbado.
Sílvia cantava ao piano a cavatina do 1º ato do Trovador. Teófilo a dois passos ouvia enlevado aquelas notas que Sílvia reproduzia como saídas da alma. Tudo lhe esquecia: receios, temores, desconfianças do mundo. Parecia-lhe que era o senhor daquela mulher e daquele coração, e deixava-se embalar na doce ilusão da sua fantasia e do seu amor.
Sílvia, quando acabou, voltou o rosto e deu com os olhos em Teófilo. Depois, tomando de
sobre o piano o leque de penas que ali depusera, levantou-se e dirigiu-se para o sofá onde estava Teófilo.
— Gostou? perguntou ela.
— Muito, disse o poeta adoçando a voz como se respondesse a um anjo. Sílvia sentou-se em uma cadeira que ficava ao pé do sofá.
Teófilo fitou os olhos em Sílvia.
Tudo ali conspirava para a declaração do poeta. Estava diante de uma mulher esplêndida de beleza, de elegância e de graça. A luz, nem muita nem pouca, era suficiente para dar ao quadro um fundo vago e ideal.
Sílvia suportou o olhar amoroso do moço. Depois, abrindo os olhos em um sorriso divino, pronunciou estas palavras com um tom de curiosidade infantil:
— Por que me olha assim?
— Porque... disse o poeta.
E calou-se.
— Por quê? disse a moça.
— Porque... ; ah! perdão!... não poderei guardar este segredo... Eu... amo-a... Dizendo estas palavras Teófilo levantou-se e esperou de pé a resposta de Sílvia. Sílvia baixou os olhos, deu uma volta ao leque, bateu com ele sobre o joelho, e olhou silenciosa para Teófilo.
O moço estava embaraçado. Que fazer diante daquele silêncio? Entretanto a sua felicidade dependia de uma palavra de afirmação da moça. Ela persistia calada. Enfim fez um esforço e murmurou:
— Diga-me...
— Não lhe digo nada, disse Sílvia levantando-se.
— Por quê?
— Porque... não sei.
— Ah!
Esta simples exclamação foi surda, e Sílvia mal pôde percebê-la.
A resposta da moça era dúbia. Podia afirmar, podia negar. Teófilo reparou nisto e sentiu um raio de esperança. Sílvia tinha dado alguns passos até a janela. Teófilo ia à janela quando a moça voltava.
— Prefiro a verdade, cruel embora, à dúvida, disse ele. Se não me pode amar é melhor que o diga francamente. Entretanto atenda bem para o estado do meu coração: é amor que eu sinto, amor puro, ardente, elevado. Sinto...
— Basta, disse Sílvia; serei franca: não o amo!
— Ah!
Teófilo encostou-se a um móvel.
— Não o amo. Talvez viesse a amá-lo. Mas como? Mal o conheço... Demais, este amor levaria a algum ato definitivo, e eu não estou disposta a casar-me...
Dizendo estas palavras, a moça foi sentar-se no sofá.
Teófilo estava atônito. Não eram as palavras de Sílvia que lhe pareceram estranhas; a moça podia não amá-lo. Mas o que lhe parecia estranho era o tom frio e indiferente com que elas foram ditas. Nem uma comoção, nem um pesar. E havia debaixo daquela frieza um desdém mal encoberto, talvez destinado a cortar de uma vez as esperanças do poeta. A este curto diálogo dos dois seguiu-se um profundo silêncio, mal interrompido pelo leve ruído do leque com que Sílvia se abanava indolentemente.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.