Por Machado de Assis (1867)
- Mais que os outros. Tem o que os outros não tinham ou não pareciam ter: a vaidade de agradar por seus encantos.
- Pois este?...
- É o que te digo. Acreditarás tu que foi só depois de muitos dias que me resolvi a prendê lo como todos? Ao princípio afetava uma indiferença sem igual: parecia alheio a mim, e entretanto eu sabia que ardia por figurar entre os meus adoradores. Hoje é o pior de todos. Se visses a carta que me escreveu!
- Ah! escreveu-te...
- Oh! um regimento de tolices, sem pés nem cabeça, umas coisas já muito velhas e batidas, declarando-me que da minha decisão dependia a felicidade ou a condenação dele. Quer fazer supor que morre se eu responder que não o aceito em meu coração. Que tal?
- Pensei que este meio já se não usava.
- Usa-se, usa-se...
- Mas dize-me cá; não gostas de alguém?
- Por ora, não.
- Mas deveras ninguém te inspirou ainda amor?
- Não. Que queres? Fui educada com o recato maior deste mundo; entrando na convivência das outras, e nas distrações nos bailes, não pude logo ao principio tomar afeição alguma. Foi tempo esse que gastei em duas coisas: em ler e observar. Ora, da leitura adquiri idéias talvez um pouco absurdas, mas enfim adquiri, e fora das quais não compreendo o amor. Gosto de amar e ser amada por inspiração, e com verdadeira paixão. Até aqui nada tenho visto além de uns amores vulgares que não contentam o coração.
- E sabes se algum dia encontrarás?
- Talvez... quem sabe?
- Ah! maliciosa! Aí anda coisa!
- Qual!
- Quem sabe se este último, este de hoje, o da flor?...
Nisto passava um grupo. As vozes calaram-se e Ernesto foi obrigado a coser-se mais com a janela e a cobrir-se com a cortina.
O rapaz suava ouvindo aquelas coisas a seu respeito. Sentia o efeito que se sente ao acordar de um sonho em que se parece estar no cimo de uma montanha, quando realmente se está a três ou quatro palmos do chão.
Não era bem o amor dele que se ressentia; era mais o amor-próprio ferido naquelas palavras com que era tratado.
Depois de uma batalha tão renhida e cuidada, reparava ele que não passara de um joguete aos manejos de uma dama ardilosa e namoradeira.
Quando pôde de novo ouvir a conversa que, aliás, lhe chegava entrecortada e incompleta, já as duas moças tratavam de outro ponto da questão.
- Mas o que pretendes fazer? perguntou a desconhecida.
- É conforme o modo por que ele me falar. Talvez o receba com uma secura tal que ele nunca mais se lembre de mim.
- Não tens pena de perdê-lo?
- Ora, rei morto, rei posto.
- Dize antes: reis mortos, reis postos!
Riram ambas, ambas se beijaram, e dando o braço uma à outra saíram dali como dois anjinhos que acabavam de pedir a Deus por uma alma condenada.
Ernesto, apenas sentiu que elas já estavam longe, saiu do seu esconderijo. Que iria fazer? Esteve alguns instantes sem tomar determinação alguma. Ainda não tinha falado a Onda; o melhor meio que lhe pareceu era dirigir-se à moça, cumprimentá-la e não tocar no assunto da carta. Depois, se ela viesse de si ao assunto, falar conforme o tom das suas palavras e procurar fugir ao ridículo e à afronta.
Tendo tomado esta resolução, Ernesto caminhou para o salão em busca de Onda. Tocava-se o sinal de uma quadrilha. Ernesto dirigiu-se para Onda com um sangue frio afetado e fez-lhe, o mais gracioso e indiferente que pôde, um cumprimento. Depois convidou-a a dançar.
- E se eu tiver par? perguntou a moça, um pouco admirada da discordância que notava entre a carta e aqueles modos.
- Paciência; esperarei.
- É tão resignado assim?
- Por que não?
Mas os olhos de Onda, com que Ernesto não contava, iam fazendo já o efeito do costume, de modo que a indiferença com que ele viera determinado começou a dar lugar a uma ternura misturada com humildade. Onda respondeu:
- Pois quero dar-lhe uma prova de amizade. Vou roer a corda ao par.
- Oh! isso!
- Por que não? Está dito: vamos dançar.
E, levantando-se, aceitou o braço de Ernesto, que nada pôde responder a estas palavras, tão estranho lhe pareceu aquele procedimento.
Formou-se a quadrilha e ambos dançaram, tendo exatamente por vis-à-vis a companheira de Onda e um dos rapazes da aposta com Ernesto.
É inútil dizer que nenhum cavalheiro alegou a falta de Onda, visto que ela não tinha realmente par aceito para a quadrilha.
Durante a dança os ressentimentos de Ernesto foram desaparecendo cada vez mais. No fim estava quase como na hora em que escreveu a carta.
Terminada a quadrilha foram os dois para o pequeno terraço da casa. A noite era das mais belas. Esta circunstância serviu de tema para as primeiras palavras de Ernesto, a quem ocorreram no momento as palavras de uma situação de romance que ele lera alguns dias antes.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Onda. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1867.