Por Machado de Assis (1875)
Sobre esta frágil base de uma conjectura, edificou Moreira um castelo de esperanças; falou distraidamente a quantas pessoas encontrou, e meteu-se em casa à espera do amigo.
O amigo não se demorou.
Estava justamente Moreira a pensar nele quando a figura de Alves apareceu à porta do quarto.
— Entra.
— Ninguém nos ouve?
— Ninguém.
Alves fechou a porta do quarto com a chave e pô-la no bolso. Moreira olhou para ele espantado, e ia naturalmente perguntar-lhe a causa daquele fato, quando o advogado lhe tirou de todo a voz com outro gesto ainda mais significativo: tirou um revólver da algibeira e pô-lo ao pé de si na mesa. Sentou-se e começou a falar.
Antes, porém, de dizer o que disse Alves ao seu amigo Moreira, voltemos um pouco atrás e digamos ao leitor o acontecimento que deu causa ao outro que vai principiar. Na véspera, logo depois de se retirar a seus aposentos, Eulália mandou chamar o marido. Este ia justamente para lá.
— Que queres? perguntou Alves com solicitude.
Eulália caiu-lhe nos braços lavada em lágrimas.
— Que tens? perguntou o marido ansioso.
Eulália não pôde falar. Alves estava aflito.
— Vamos, não chores, que tens? disse ele.
— Deixa-me chorar, murmurou a moça; estas lágrimas são de alegria.
— De alegria?
— Sim; amo-te.
Alves perguntou-lhe sorrindo:
— Só agora?
— Não; mas só agora o sei, respondeu Eulália, enxugando os olhos. Amo-te deveras; não o tinha compreendido até hoje. És bom, amante, generoso, como nenhum outro homem. Alves sentiu-se comovido e desviou o rosto.
— Oh! não te escondas! exclamou ela; eu sei o que vales.
— Mas por que razão?...
— Vais saber tudo, disse a moça, sentando-se e convidando-o a sentar-se ao pé de si. Alves sentou-se ao pé da mulher.
— Não me casei contigo por amor, sabes, disse ela; conquistaste-me depois o coração a pouco e pouco. Não que eu o soubesse; eu mesma não esperava a vitória que ias obtendo. A razão por que me não casei por amor foi que circunstâncias estranhas me haviam separado de um homem com quem eu então desejava unir-me. Daí veio a tristeza em que eu vivia sempre, que minha mãe não podia explicar, e que tu buscaste apagar por todos os meios que a tua generosidade e o teu amor te sugeriam.
— Esse homem?...
— Esse homem é o teu amigo Moreira.
Alves deu um salto da cadeira em que se achava sentado. Eulália fez-lhe um gesto para que se sentasse de novo.
— Mas a que vem esta história? perguntou Alves.
— Antes de dizer mais nada, promete que me hás de obedecer.
— Mas...
— Prometes?
— Prometo.
— Pois bem, esse homem voltou da Europa e tu trouxeste-o à nossa casa. Onze anos eram passados depois que ele havia partido. Era teu amigo e eu não lhe era estranha ao coração: dois motivos que, juntos, deviam servir de barreira entre ele e a nossa porta. Veio contudo à nossa casa, muitas vezes; devia respeitar-me; não me respeitou...
Dizendo isto, abriu Eulália uma caixinha e tirou de dentro uma carta, a primeira de Moreira, que entregou aberta ao marido.
Alves atirou-se com sofreguidão ao fatal papel; leu-o, machucou-o entre as mãos, levantou-se exasperado. Eulália pediu-lhe que se sentasse outra vez.
— Não lhe respondi, disse ela; era claro que não devia responder. Devia mostrar-te a carta logo ou rasgá-la; não tive ânimo de ta mostrar, nem me pareceu conveniente rasgá la; podia ter necessidade de dizer tudo. Ele insistiu na resposta, e ontem, na nossa sala, atirou-me este bilhete. Foi a indignação que me causou a perfídia do homem que tão serenamente conversava contigo, quando buscava atraiçoar-te, foi essa indignação que me fez soltar aquele grito.
Alves leu o bilhete de Moreira, que nada adiantava depois da carta, apenas a reincidência e a pertinácia de um aparente amigo. Houve naturalmente uma explosão de cólera; Eulália buscou tranqüilizá-lo e o conseguiu.
— Devo antes agradecer, disse ela, a indignidade daquele homem; foi ela que me deixou ver claro no meu coração; minha virtude era bastante; mas a certeza de que eu te amava deveras, o teu verdadeiro amor, a superioridade do teu caráter, tudo isso junto realçou as forças da minha virtude...
A resposta de Alves foi abraçá-la com ternura. Em seguida caminhou para a porta.
— Onde vais? perguntou Eulália.
Alves parou.
— Prometeste obedecer-me, observou a moça.
— Impossível! bradou Alves.
— Oh! eu nada te diria se não tivesse certeza de que evitarias alguma catástrofe. Por Deus te pego; basta o nosso desprezo...
Alves resistiu; Eulália rogou; ambos chegaram finalmente a um acordo: Alves evitaria qualquer lance sanguinolento. Foi depois desta cena que o advogado foi ter com Moreira.
V
Moreira ficou naturalmente assombrado quando viu o gesto do advogado.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Onze anos depois. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1875.