Por Machado de Assis (1866)
Ensinar-nos a nós? Por Júpiter, eu rio!
CUPIDO
Ouves, meu tio, um som, um farfalhar de seda?
Vai ver.
APOLO
(indo ver)
É uma mulher. Lá vai pela alameda.
Quem é?
CUPIDO
Juno, a mulher de Júpiter, teu pai.
APOLO
Deveras? É verdade! olha, Marte, lá vai,
Não conheci.
CUPIDO
É bela ainda, como outrora,
Bela, e altiva, e grave, e augusta, e senhora.
APOLO
(voltando a si)
Ah! mas eu não arrisco minha divindade... (a Marte)
Olha o espertalhão!... Que tens?
MARTE
(absorto)
Nada.
CUPIDO
Ó vaidade!
Humana embora, Juno é ainda divina.
APOLO
Que nome usa ela agora?
CUPIDO
Um mais belo: Corina!
APOLO
Marte, sinto... não sei...
MARTE
Eu também
APOLO
Vou sair.
MARTE
Também eu.
CUPIDO
Também tu?
MARTE
Sim, quero ver... quero ir
Tomar um pouco de ar...
APOLO
Vamos dar um passeio.
MARTE
Ficas?
CUPIDO
Quero ficar, porém, não sei... receio...
MARTE
Fica, já foste um deus, nunca és importuno.
CUPIDO
É deveras assim? Mas...
MARTE
Ah! Vênus!
APOLO
Ah! Juno!
Cena IX
CUPIDO, MERCÚRIO
CUPIDO
(só)
Baleados! Agora os outros. É preciso,
Graças à voz do amor, dar-lhes algum juízo.
Singular exceção! Muitas vezes o amor
Tira o juízo que há... Quem é?
Sinto rumor... Ah! Mercúrio!
MERCÚRIO
Sou eu! E tu? É certo acaso
Que tenhas cometido o mais triste desazo?
Ouvi dizer...
CUPIDO
(em tom lastimoso)
É certo.
MERCÚRIO
Ah! covarde!
CUPIDO
(o mesmo)
Isso! isso!
MERCÚRIO
És homem?
CUPIDO
Sou o amor, sou, e ainda enfeitiço,
Como dantes.
MERCÚRIO
Não és dos nossos. Vai-te!
CUPIDO
Não!
Vou fazer-te, meu tio, uma observação.
MERCÚRIO
Vejamos.
CUPIDO
Quando o Olimpo era nosso...
MERCÚRIO
Ah!
CUPIDO
Havia
Hebe, que nos matava, e a Júpiter servia. Poucas vezes a viste. As funções de correio Demoravam-te fora. Ah que olhos! ah que seio! Ah que fronte! ah...
MERCÚRIO
Então?
CUPIDO
Hebe tornou-se humana.
MERCÚRIO
(com desprezo)
Como tu.
CUPIDO
Ah quem dera! A terra alegre e ufana
Entre as belas mortais deu-lhe um lugar distinto.
MERCÚRIO
Deveras!
CUPIDO
(consigo)
Baleado!
MERCÚRIO
(consigo)
Ah! não sei... mas que sinto?
CUPIDO
Mercúrio, adeus!
MERCÚRIO
Vem cá! Hebe onde está?
CUPIDO
Não sei.
Adeus. Fujo ao conselho.
MERCÚRIO
(absorto)
Ao conselho?
CUPIDO
Farei
por não atrapalhar as vossas decisões.
Conspirai! Conspirai!
MERCÚRIO
Não sei... Que pulsações!
Que tremor! que tonteira!
CUPIDO
Adeus! Ficas?
MERCÚRIO
Quem? eu?
Hebe?
CUPIDO
(à parte)
Falta-me Jove, e Vulcano, e Proteu.
Cena X
MERCÚRIO, depois MARTE, APOLO
MERCÚRIO
(só)
Eu doente? de quê? É singular!
(indo ao vinho)
Um gole!
Não há vinho nenhum que uma dor não console.
(bebe silencioso)
Hebe tornou-se humana!
MARTE
(a Apolo)
É Mercúrio.
APOLO
(a Marte)
Medita!
Em que será?
MARTE
Não sei.
MERCÚRIO
(sem vê-los)
Oh! como me palpita
O coração!
APOLO
(a Mercúrio)
Que é isso?
MERCÚRIO
Ah! não sei... divagava...
Como custa a passar o tempo! Eu precisava
De sair e não sei... Jove não voltará?
MARTE
Por que não? Há de vir.
APOLO
(consigo)
Que é isso?
(silêncio profundo)
Estou disposto!
MARTE
Estou disposto!
MERCÚRIO
Estou disposto!
Cena XI
Os mesmos, JÚPITER
JÚPITER
Meus filhos, boa nova!
(os três voltam a cara)
Então? voltais-me o rosto?
MERCÚRIO
Nós, meu pai?
APOLO
Eu, meu pai?
MARTE
Eu não...
JÚPITER
Vós todos, sim!
Ah! fraqueais talvez! Um espírito ruim
(continua...)
ASSIS, Machado de. Os deuses de casaca. Rio de Janeiro, 1866.