Por Machado de Assis (1872)
— Tlin, tlin, tlin, bateu o relógio de repente.
— Três horas! exclamou Romualdo levantando-se. Vamos!
Mirou-se a um espelho, calçou as luvas, pôs o chapéu na cabeça, e saíram. No dia seguinte e nos outros, a viúva foi o assunto, não principal, mas único, da conversa dos dous amigos, no escritório, entre onze horas e três. O Fernandes cuidava de manter o fogo sagrado, falando da viúva ao Romualdo, dando-lhe notícias dela, quando casualmente a encontrava na rua. Mas não era preciso tanto, porque o outro não pensava em coisa diferente; ia aos teatros, a ver se a achava, à Rua do Ouvidor, a alguns saraus, fez-se sócio do Cassino. No teatro, porém, só a viu algumas vezes, e no Cassino, dez minutos, sem ter tempo de lhe ser apresentado ou trocar um olhar com ela; dez minutos depois da chegada dele, retirava-se a viúva, acometida de uma enxaqueca.
— Realmente, é caiporismo! dizia ele no dia seguinte, contando o caso ao Fernandes.
— Não desanimes por isso, redargüia este. Quem desanima, não faz nada. Uma enxaqueca não é a coisa mais natural do mundo?
— Lá isso é.
— Pois então?
Romualdo apertou a mão ao Fernandes, cheio de reconhecimento, e o sonho continuou entre os dous, cintilante, vibrante, um sonho que valia por duas mãos cheias de realidade.
Trezentos contos! O futuro certo, a pasta de ministro, o Fernandes inspetor de alfândega, e, mais tarde, bispo do Tesouro, dizia familiarmente o Romualdo. Era assim que eles enchiam as horas do escritório; digo que enchiam as horas do escritório, porque o Fernandes para ligar de uma vez a sua fortuna à de César, deixou o emprego ínfimo que tinha no foro e aceitou o lugar de escrevente que o Romualdo lhe ofereceu, com o ordenado de oitenta mil-réis. Não há ordenado pequeno ou grande, senão comparado com a soma de trabalho que impõe. Oitenta mil-réis, em relação às necessidades do Fernandes, podia ser uma retribuição escassa, mas cotejado com o serviço efetivo eram os presentes de Artaxerxes. O Fernandes tinha fé em todos os raios da estrela do Romualdo: — o conjugal, o forense, o político. Enquanto a estrela guardava os raios por baixo de uma nuvem grossa, ele, que sabia que a nuvem era passageira, deitava-se no sofá, dormitando e sonhando de parceria com o amigo.
Nisto apareceu um cliente ao Romualdo. Nem este, nem o Fernandes estavam preparados para um tal fenômeno, verdadeira fantasia do destino. Romualdo chegou ao extremo de crer que era um emissário da viúva, e esteve a ponto de piscar o olho ao Fernandes, que se retirasse, para dar mais liberdade ao homem. Este, porém, cortou de uma tesourada essa ilusão; vinha “propor uma causa ao senhor doutor”. Era outro sonho, e se não tão belo, ainda belo. Fernandes apressou-se em dar cadeira ao homem, tirar-lhe o chapéu e o guarda-chuva, perguntar se lhe fazia mal o ar nas costas, enquanto o Romualdo, com uma intuição mais verdadeira das coisas, recebia-o e ouvia-o com um ar cheio de clientes, uma fisionomia de quem não faz outra coisa desde manhã até à noite, senão arrazoar libelos e apelações. O cliente, lisonjeado com as maneiras do Fernandes, ficou atado e medroso diante do Romualdo; mas ao mesmo tempo deu graças ao céu por ter vindo a um escritório onde o advogado era tão procurado e o escrevente tão atencioso. Expôs o caso, que era um embargo de obra nova, ou coisa equivalente. Romualdo acentuava cada vez mais o fastio da fisionomia, levantando o lábio, abrindo as narinas, ou coçando o queixo com a faca de marfim; ao despedir o cliente, deu-lhe a ponta dos dedos; o Fernandes levou-o até o patamar da escada.
— Recomende muito o meu negócio ao senhor doutor, disse-lhe o cliente.
— Deixe estar.
— Não se esqueça; ele pode esquecer no meio de tanta coisa, e o patife... Quero mostrar àquele patife, que me não há de embolar... não; não esqueça, e creia que... não me esquecerei também...
— Deixe estar.
O Fernandes esperou que ele descesse; ele desceu, fez-lhe de baixo uma profunda zumbaia, e enfiou pelo corredor fora, contentíssimo com a boa inspiração que tivera em subir àquele escritório.
Quando o Fernandes voltou à sala, já o Romualdo folheava um formulário para redigir a petição inicial. O cliente ficara de lhe trazer daí a pouco a procuração; trouxe-a; o Romualdo recebeu-a glacialmente; o Fernandes tirou daquela presteza as mais vivas esperanças.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O programa. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1872.