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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta

Por Machado de Assis (1867)

Não quero, doutor, entrar nas mil particularidades do amor entre o poeta e a viúva. Cartas, versos, flores, ósculos sinceros e castos, tudo isso que se troca entre namorados, todos esses episódios romanescos e tão velhos como o mundo, tudo isso se deu entre os meus dois heróis.

Estavam próximos de pedirem o necessário consentimento para que a união legal confirmasse a união moral em que eles existiam. Marcaram dia, e o poeta dispôs-se a usar das palavras mais brandas e persuasivas que conhecesse da língua portuguesa para convencer ao tio da sua amada de que podia fazer a felicidade dela. Era desnecessário dizer nada à própria mãe, que desde os primeiros dias do amor do poeta ficou ciente por confissão dele.

Na véspera do dia aprazado, o poeta foi ver a viúva. Achou-a muito triste. Indagou o motivo dessa tristeza a que não estava afeito, mas não conseguiu arrancar uma palavra à moça. Respondeu que tinha dores de cabeça, mas depois de muitas instâncias e com ar de quem não dizia a verdade.

Passando a falar do pedido em casamento, a viúva disse ao amante que o adiasse, e quando este lhe perguntou que razões haviam para isso, ela respondeu que lhas comunicaria depois. Aconteceu logo o que era natural, um pequeno arrufo. E só arrufo, porque ela deu aquela resposta entre tantos suspiros, com um olhar tão convencido, tão sincero, que o poeta não pôde, o que lhe seria natural, experimentar maior desgosto. O doutor sabe o que são arrufos dos namorados, é chuva miúda da primavera que tão depressa vem como vai. No fim de alguns minutos tinham voltado às boas, e o poeta despedia-se da viúva com a convicção de que só uma grande razão faria com que ela adiasse o pedido do casamento.

Era com efeito uma grande razão, como vai ver.

Desde aquele dia em diante a viúva mudou. Mais e mais fria, mais e mais reservada, trazia o espírito do poeta entre a dúvida e o desespero, entre a mágoa e a esperança. Que se teria passado? Em vão o rapaz indagava todos os motivos prováveis e possíveis; não podia atinar com a causa de semelhante transformação.

Enfim, uma noite em que se achavam na casa de uma terceira pessoa, o poeta pôde falar a sós à viúva. Expôs-lhe francamente o que sentia e fez um franco interrogatório sobre a tristeza que a moça apresentava.

As respostas da moça foram ambíguas. O poeta desesperou.

— Por que me não falarás com franqueza, Carlota?

— Quer mais franqueza?

— Oh! não zombes! Tu não calculas o que sofro, nesta incerteza em que me pões. Sê franca, prefiro isso.

— Não sei que te hei de dizer.

— Dize o que quiseres, inventa, se te parece, mas dize alguma coisa. Estas respostas ambíguas, estas evasivas transparentes não me consolam, antes me deitam em pior estado. Não me amas?

— Amo-te.

— Então?...

Esta conversa foi interrompida. Nessa noite não puderam falar mais a sós. O poeta saiu desesperado. Sentia que algum segredo existia no fundo daquela tristeza da moça... A suspeita curvou-se-lhe à cabeceira e introduziu-lhe no espírito mil idéias negras que foram outros tantos demônios que fizeram daquela noite uma noite infernal... O poeta não dormiu. Depois de vãos esforços levantou-se e foi... escrever versos! triste consolação dos que a natureza dotou com o gênio da poesia. No fim de uma hora de trabalho em que as estrofes lhe caíam do bico da pena como lágrimas de dor e de saudade, o poeta tinha transferido parte de sua alma para o papel. Estava mais calmo, sem estar menos triste.

Dois dias conservou-se em casa sem falar a pessoa alguma. De hora a hora esperava uma carta de Carlota. Nada. Ao terceiro dia, desesperado com o silêncio da viúva, resolveu ir, houvesse o que houvesse, pedi-la ao tio. Já estava em caminho quando lhe ocorreu a idéia de que sem completa averiguação dos motivos da tristeza da moça podia expor-se não só ao desgosto, mas ainda ao desar. Voltou para casa e escreveu uma carta à viúva pedindo-lhe explicações.

Veio a resposta. Era um desengano. Carlota respondia que não podia amá-lo, e que se esquecesse dela.

Dizer-lhe o que o poeta sofreu é contar-lhe muita coisa que deve saber de longa data. Sofreu... o que estou sofrendo. Caiu enfermo com uma febre violenta. Só dai a um mês se levantou, mas então já tinha em si o germe de uma enfermidade mais grave que depois o tomou de todo... e há de levá-lo à sepultura.

Durante a moléstia fez loucuras incríveis. Tudo o que podia agravar-lhe o estado e encaminhar-lhe a morte, fê-lo com uma alegria selvagem, mas sincera. Enfim, restabelecido da febre, mas, como disse, doente de outra doença, o poeta levantou-se e não teve mão em si. Resolveu ir procurar a viúva. Queria a todo o transe conhecer as causas da recusa de Carlota, e sobretudo queria lançar-lhe em rosto a sua perfídia, de modo a não parecer covarde.



(continua...)

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