Por Bernardo Guimarães (1883)
Carlos não sabia como passar aquelle longo dia de novembro, que tão ardentemente desejava ver cahido nos abysmos do passado, não para amaldiçoal-o, mas para glorifical-o como a data mais feliz de sua vida, si acaso o dia seguinte viesse confirmar as risonhas esperanças da vespera. Em casa achou somente o cozinheiro de Frederico, que preparava o jantar. Na situação em que se achava o espirito de Carlos, o que mais lhe convinha era mesmo ou a solidão, ou um amigo intimo, com quem desabafasse suas emoções ; como Frederico não apparecia, ficava-lhe por companheira a solidão. O cozinheiro servio-lhe o jantar ; Carlos sentouse á mesa, mas apenas ingerio automaticamente alguns bocados, e logo levantou-se. Consultava de continuo o relogio, mas os minutos volvião-se com tal lentidão, que parecião horas. Ficar alli sosinho dentro de casa não lhe pareceo o melhor modo de accelerar a carreira do tempo.
— Vamos passear, — pensou elle, — dar um passeio bem largo e bem fatigante, andar, andar, pouco importa por onde, até anoitecer. O longo exercicio trará a fadiga, e a fadiga o somno, e nada ha melhor para dar velocidade ás azas do tempo que o somno ; a dormir, um seculo volve-se em um minuto.
Tinha bastante razão, como a experiencia e o resultado vierão demonstrar. O amante de Rozaura tomou o chapéo e sahio; foi até a Ponte-grande do Tieté, que distava de sua casa cerca de meia legoa, procurando esquecer-se mas lembrando-se sempre do dia seguinte, que tinha de resolver o problema de seu futuro destino. Quando voltou, já vinha cahindo a noite; apezar de bastante fatigado, continuou ainda a passear á toa por todas as ruas da cidade, até que badalárão dez horas no relogio da Sé. Então voltou para a casa, que como de dia achou completamente deserta; Frederico tinha ido ao theatro. Fatigado tanto de andar como de pensar, Carlos deitou-se e dormio profundamente até o dia seguinte. Quando abrio os olhos e vio que já raiava a luz do dia, estremeceo de jubilo.
— É hoje! é hojeo dia! — murmurou comsi oo. Dia feliz ou nefasto? . . . não sei, mas em poucas horas estarei sciente do destino que me espera.
Consultou o relogio; já era bem tarde, quasi nove horas.
— Bom! — exclamou elle. — Bemaventurado somno, que assim me encolheo o tempo ! já me faltãD poucas horas; emquanto lavo o rosto, visto-me e almoço, approxima-se o momento suspirado. Entretanto vamos a ver o Frederico.
Frederico tresnoitado do theatro ainda dormia a somno solto.
— Melhor I — reflectio Carlos, — deixemolo dormir. Não quero dar-lhe uma noticia incompleta, ler-lhe um romance, cujo desfecho ainda não está escripto. Logo saberá tudo.
Carlos vestio-se e preparou-se com vagar e esmero, cousa que ha muito tempo não era seu costume, almoçou mal e apressadamente, emquanto Frederico dormia, tomou o chapéo e sahio, Todavia muito a seu pesar erão apenas dez horas. Como era domingo, vendo uma egreja aberta entrou para ouvir missa e ganhar tempo. Depois de ter dado ainda muitas voltas, ouvia em transportes de alegria soar meio dia na torre da Sé. Ouão harmoniosas lhe soárào aos ouvidos aquellas doze badaladas ! . . . Era chegado emfim o momento, que ha vinte quatro horas esperava com tão impaciente anciedade. Conrado tinha-lhe dito que do meio dia em diante estaria em casa á sua espera.
CAPITULO XXIV
Beatitude.
Quando Carlos bateo palmas em casa de Conrado, foi Rozaura que se apresentou no topo da larga escadaria, e com um gracioso aceno disse-lhe :
—— Queira subir.
Estava divina ; em toda a sua figura respi rava um não sei que de celeste e arrebatador; banhava-lhe os labios um ligeiro sorriso, que communicava-lhe a toda a physionomia uma expressão de felicidade tão calma e suave, que a terieis por um anjo no gozo completo de todos as venturas do empireo. Tinha chegado ha pouco da rua, e ainda não tinha deixado o vestido de nobreza preta, com que fôra com seu pae ouvir na Sé a missa conventual. Esta côr do vestido dava o mais esplendido realce ao seu busto gracioso, e communicava•lhe á tez uns matizes de jaspe ligeiramente rosado do mais encantador effeito.
Subindo as escadas, Carlos pensou que ia sendo assumido ao paraizo, a cuja porta um cherubim o esperava para introduzil-o na mansão das delicias eternas. Todavia não ia muito seguro da sorte que o esperava, e transpoz a passos vacilantes o portico daquelle recinto, que para elle symbolizava o céo. A despeito dos lisonjeiros e esperançosos sym— ptomas, que lia no rosto radiante de Rozaura, ainda pairava-lhe na mente um resto da duvida e desconfiança, que o assaltára na ves— pera. Era ainda uma alma que chegava ás portas do céo para ser julgada, e bem podia acontecer que fosse precipitada por aquellas escadas abaixo, condemnada aos tormentos do inferno.
Tendo introduzido Carlos no salão, Rozaura retirou-se, e dahi a poucos instantes appareceo Conrado.
— Muito bem, meu caro Carlos, — disse elle ao entrar; —estimo que viesse cedo, como lhe havia recommendado, pois temos muito que conversar.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.