Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Mas evidentemente a Chiquinha não era assim cruel por inimiga da poesia, e dos homens de espírito brilhante, pois que se deixara cativar em 1822 pelo mais elegante e mimoso dos escritores da época, cultor inspirado das musas, literato ameníssimo, o qual também andava perdido de amores por ela.
Este namorado e amante da Chiquinha era sem mais nem menos o ilustre benemérito da Independência, depois deputado nas duas primeiras legislaturas (de 1826 a 1833), e nelas esplêndido e mavioso orador parlamentar, o notabilíssimo fluminense Joaquim Gonçalves Ledo.
A memória desse varão assinalado não pode ser amesquinhada pela lembrança de sua paixão (aliás de todos sabida em 1822) pela formosa Chiquinha, e tanto mais que Ledo foi sempre em sua vida famoso como grande e entusiasta apreciador do belo na arte, e transportado adorador do belo na mulher.
Joaquim Gonçalves Ledo foi grande e fulgurosa inteligência e grande coração patriota, e se quiserem nodoar-lhe a memória ilustre pelas suas fraquezas ou pecados de amoroso culto rendido à Chiquinha, e a outras belas damas, adeus memória de Francisco I, de Henrique IV, de Luís XIV de França, de D. Pedro I do Brasil, dos Richelieu, do regente Duque de Orleans, de José Bonifácio, etc., etc., etc., etc. e no fim de tantos et coetra raro seria o rei, o ministro, o herói, e até o João Fernandes capaz de atirar a pedra sobre aquele benemérito e glorioso fluminense.
Mas Ledo, que andava doido pela Chiquinha, tinha, certamente, ótimas razões para duvidar da fidelidade dessa encantadora rapariga, que aliás também o amava com dedicada preferência; injustíssimo, porém, se mostrava às vezes ciumento de Bernardo Avelino, que, coitado, realmente gostava muito da Chiquinha, mas gastava debalde com ela sua prosa e seus versos, sem dúvida porque, pobre como era, o poeta não tinha senão prosa e versos para recomendar o seu amor.
Um dia (foi depois de 15 de setembro de 1822), Ledo, jubiloso e feliz pelo triunfo da causa da independência da pátria, à que tão dedicada e gloriosamente servira, foi radioso e alegre render finezas à Chiquinha.
Tinha a bonita moça além da sua boniteza e graça natural o dote de focar sofrivelmente guitarra, e de cantar com excelente voz modinhas e lundus.
Dizem que não havia quem como ela cantasse com doçura, expressão e requintado gosto a modinha então em moda, versos do ilustrado filósofo depois Marquês de Maricá:
Marília, se me não amas,
Não me digas a verdade, Finge amor, tem compaixão, Mente, ingrata, por piedade.
Doce mentira
Sabe agradar;
Um desengano Pode matar.
Naquele dia a Chiquinha pediu a Ledo que lhe escrevesse alguns versos para a música de modinha ou de lundu que ela costumava cantar, favor que aliás estava habituada a merecer.
Ledo tomou a pena e escreveu a seguinte quadra com o seu estribilho:
Nesta rua tenho ao lado
Um cego que é rico e nobre,
E defronte um namorado Poeta infeliz e pobre. Não sou indiscreta,
Que procure o esquivo; E quanto ao poeta De versos não vivo.
O epigrama não subira à altura das admiradas inspirações e do aticismo de Ledo; era antes ligeira zombaria feita a Chiquinha nas alusões ao ilustre varão, honesto chefe de família que não a olhava e parecia estranho à existência da mais que leviana rapariga, e a Bernardo Avelino, o poeta pobre, que a namorava.
Mas a Chiquinha riu muito, achou ótima a quadrinha, e tanto cantou-a, que Bernardo Avelino, tendo dela conhecimento, deu-lhe resposta em furioso soneto, do qual possuo cópia, mas não o transcrevo aqui, porque, além de muito injurioso, chegou levado pela cólera até a aproveitar aleives que inimigos tinham assacado contra Ledo.
O ilustrado e célebre fluminense desprezou a insultuosa desforra, dando-se por bem consolado com o amor da Chiquinha - como dizia a brincar, e para mais atormentar o poeta a quem na verdade provocara, ridicularizando-o.
Mas de fato não sobrava tempo a Ledo para combates mesquinhos e pouco dignos dele e de Bernado Avelino.
Ledo achava-se então muito absorvido em transcendentes assuntos políticos do Império nascente, já proclamado, mas à espera da sua constituinte, e não menos o atarefavam as contendas e lutas de influência predominante no seio da maçonaria, que guarda o segredo das causas de alguns dos mais consideráveis acontecimentos da época.
A 28 de outubro de 1822 demitiu-se o Ministério Andrada, e a 30 do mesmo mês e ano voltou de novo ao poder com a força e o prestigio de representação popular que o reclamara, e com ostentosa, pública e comovida aceitação do Imperador D. Pedro I.
Ledo, que era na maçonaria antagonista dos Andradas, logo na manhã de 31 de outubro deixou sua casa e ocultou-se, prevendo perseguições políticas.
Tinha adivinhado.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.