Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Tambem se lhe faz, tambem se lhe faz — acudiu o Victorino, excitado.

— De velludo — disse timidamente Arthur.

— Caspité ! — exclamou o Melchior, curvando-se profundamente. — Que freguez, hein ? D'aquillo não pilhava o sô Victorino todos os dias !

O Victorino correra a buscar amostras de vellu dilho—qua.ndo, do quarto proximo, sahiu uma mulher bem feita e de pelle muito branca, com uma creança estremunhada ao collo, toda rabujenta. Mel chior abriu vivamente os braços com una exclaEnação :

—- Viva 0 fidalgo ! Então como vae a D. The reza ? Como vae isso ?

E precipitou-se a beijocar o pequerrucho, chamando-lhe seu caro amigo, fazendo-lhe beribau no beiçinho, cocegas na barriguinha, roçando-se muito pela mãe.

Tem estado com uma perrice — disse ella. — Seu maroto, seu maroto ! — roncou Melchior com voz de papão. mostrando-o a Arthur : — Que belleza, hein que bolleza !

O pequeno, assustado dos bigodes de Melchior, recomeçou a berrar, O jornalista, muito servil, afagou-o, fez glou-glou com a lingua, seguiu mesmo a mãe ao quarto, apalhaçando-se, e, d 'ahi a momentos, de certo para acalmar a creança, Arthur ouviu-o repenicar a viola franceza, cantarolando um fado de pretos.

O Victorino, diligente, ia tomando as medidas a Arthur.

—É cá muito de casa, o Melchior ! Grande cabeca ! A calcinha larga em baixo, hein — Sim, larga . a

— Ha-de ser servido a preceito.

Quando sahiram, a D. Thereza veio até ao patamar ; o pequeno socegara, com duas grossas lagrimas nas pestanas. Melchior foi logo puxar-lhe as rosquinhas do pescoço, lambuzou-lhe a face de beijocas, chamando-lhe amor, -principe ; — depois, apertou longamente a mão ao Victorino, fallou-lhe ao ouvido, abraçou-o mesmo pela cinta.

— Grande gente ! — dizia, descendo a escada. —E a mulher nio é feia — observou Arthur.

— Trago-a d'olho — disse Melchior.

Na rua do Ouro pareceu espantado de serem{já tres horas,

— Que diabo ! Tenho um rendez-vous ás tres e meia !

Não occultou mesmo que era questão de femea... Mas custava-lhe largar o amigo Arthur. Que bella manhã tinham passado, hein ? Caramba, podiam fazer uma cousa! vinha buscal-o ás cinco e iam ambos jantar ao Hotel Universal ! Havia de vêr que jantar! E que bella rapaziada! Valeu, hein? Ás cinco!

Arthur voltou logo para o Hotel. A cacophonia na Ode á Liberdade, torturava-o desde manhã, e como esperava lêr as outras poesias a Melchior, toda a tarde, curvado sobre o manuscripto, de lapis na mão — com a attenção esmiuçadora d'um jardineiro sobre um canteiro de rosas — catou cacophonias nos versos.

Melchior, muito pontual, encontrou-o ainda tra balhando :

— Com os versinhos a contas, hein

Sentou-se pesadamente na cama e retorcendo os bigodes :

— E que tal de mulheres, lá por Oliveira — Um horror !

— Pézinho descalço, cheirinho a suor ! — E re clinando-se com satisfação : — Não deixa de ter seu cabimento . . , ,

Arthur achou-o « grosseirão mas sorriu para o lisonjear—e confessou que desejava lêr-lhe a do vaue.

— Olhe que se faz tarde para o Unicersal ! — exclamou logo Melchior, pondo-se de pé. — Arriscamo-nog a não achar logar ! No Universal é muito serio !

Deu uma penteadela rapida no cabello, nos bigodes e olhando-se satisfeito ao espelho :

Verá que rapaziada ! Muito chic !

Arthur lembrava-se das descripções do Rabecaz : de certo ia encontrar no Universal litteratos, deputados, diplomatas, cantores, um mundo de civilisação superior — e um pouco envergonhado do seu fraque preto, quiz, ao menos, comprar luvas claras. — Homem ! — disse Melchior — tambem eu preciso de luvas !

Mas que ferro, tinha-lhe esquecido o dinheiro ! Arthur, immediatamente, antes d'entrar na loja, offereceu o seu porte-monnaie aberto. Que diabo, entre rapazes

— Você calha-me, Artur, você calha-me ! exclamou Melchior, com um impeto irreprimivel de gympathia.

E ambos, de luvas claras, subiram o Chiado, de braço dado — decididos tacitamente a estimaremse, ligados já por uma amizade nascente.

Tinha-se servido a sopa, quando entraram na sala do Hotel. E no primeiro relance, o aspecto das



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5758596061...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →