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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Através da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando a mulher, com palradora confiança, quase risonhos. Mas os 'ais" dela, os ruidosos lamentos pelo "seu rico homem", ressoavam, mais agudos, como a rebater e a abafar toda a consolação. E apenas Gonçalo empurrou timidamente a porta - quase acuou no espanto e medo daquela aflição estridente que se arremessava para ele e para a sua misericórdia! De rojos nas lajes, torcendo as magras mãos sobre a cabeça, toda de negro, parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do lençol estendido que secava ao lume forte da lareira - a criatura estalara num tumulto de súplicas e gritos:

- Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam o meu homem, que mo vãomandar para a África degredado! Jesus, meus filhinhos da minha alma que ficam sem pai! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e por toda a sua felicidade!... Eu sei que ele teve culpa! Aquilo foi perdição que lhe deu! Mas tenha piedade destas criancinhas! Ai, o meu pobre homem que está a ferros Ai, meu rico Senhor, por quem é!

Com as pálpebras umedecidas, agarrando, desesperadamente, a boceta de alperces, Gonçalo balbuciava, através da emoção que o estrangulava:

- Oh mulher, sossegue, já o vão soltar! Sossegue! Já dei ordem! Já o vão soltar!

E de um lado a Rosa, debruçada sobre a escura criatura que gemia, recomeçava docemente: "Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria! Logo pela manhã, o vão soltar!"- E do outro o Bento, batendo na coxa, com impaciência: -"Oh mulher, acabe com esse escarcéu! Pois se o Sr. Dr. prometeu! Logo pela manhã o vão soltar!"

Mas ela não se calmava, com o lenço da cabeça desmanchado, uma trança desprendida, soluçando e clamando através dos soluços:

- Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai, perdão, meu rico Senhor da minha alma!...

Então Gonçalo, que aquele infindável e obtuso queixume torturava, como um ferro cravado e recravado, bateu o chinelo nas lajes, berrou:

- Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de pé!... E olhe bem, olhe direita!

Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a escapar de algemas que também a ameaçassem - ela arregalou para o Fidalgo os olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que lhe enchiam a face rechupada e morena.

- Bem, perfeitamente! - exclamava Gonçalo. - E agora diga! Acha que tenho bojo de lhe mentir,quando vossemecê está nessa aflição? Pois então sossegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra. amanhã cedo, o seu homem está solto!

E a Rosa e o Bento, ambos triunfando:

- Pois que lhe dizia a gente, criatura de Deus? Se o Sr. Dr. tinha prometido... Amanhã lá tem ohomem! Lentamente ela limpava as lágrimas, já silenciosa, à ponta do avental negro. Mas ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais arregalados, devorando Gonçalo. E o fidalgo mandava com certeza a ordem, cedinho, de madrugada?... Foi o Bento que a convenceu, com violência:

- Oh mulher, você até parece atrevida! Ora essa! Pois duvida da palavra do Sr. Dr.?

Ela soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou simplesmente:

- Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...

E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que ela acarretara desde os Bravais através da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a aconchegara entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete anos, encolhido numa cadeira diante do lume, rente ao lençol que secava, secando também, com a carinha afogueada de febre, tossia despedaçadamente, num cabecear de sono e cansaço, a arquejar, a gemer contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de alperces na arca, palpou a mão com que ele, sem cessar, raspava pela abertura da camisa encardida o peito ainda mais encardido.

- Mas esta criança tem febre!... E você, com uma noite destas, traz o pequeno assim desde osBravais, mulher?

Da cadeirinha baixa, onde se sentara prostrada, ela murmurou, sem erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:

- Ai! era para que eles também pedissem, que estavam sem pai, coitadinhos!

- Vossemecê é doida, mulher! E pretende talvez voltar para os Bravais, debaixo d'água, com ascrianças?

Ela suspirou:

- Ai! volto, volto... Não posso deixar sozinha a mãe do meu homem, que tem oitenta anos e estáentrevada...

Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os braços - no embaraço daquela aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas crianças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama, não sofreria com a caminhada, bem achegadinha ao colo da mãe, debaixo de uma manta grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...

- Esse fica cá! - exclamou logo Gonçalo, decidido. - Como se chama ele? Manuel... Bem! OManuel fica cá. E vá descansada, que a Sra. Rosa toma cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadouro. Um destes dias lá lhe aparece nos Bravais, curado e mais gordo... Vá sossegada!

De novo a mulher suspirou, no cansaço imenso que a invadira, a amolecia. E sem resistir, no seu longo e abatido hábito de submissão:

- Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...

(continua...)

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