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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Aqui tens a minha vida, a vida dos dois homens que na curta passagem de quarenta anos tocaram as duas extremas do infortúnio pela desonra e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está ali naquele ermo, glorificando a herança que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o Céu à padecente que subiu e à redentora que baixou no raio da glória dela. A mulher de perdição não sei que destino teve."

- Pois ignoras o destino de Palmira? - interrompi eu, desconsolado, como todo o romancista, que desadora invenções.

- Como queres tu que eu saiba o destino de Palmira?! - replicou Afonso de Teive.

- Quem há-de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade?!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçais a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escândalos, e não faltará quem te ilumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldadamente procurarás notícias; dá-se a virtude numa obscuridade, que chega a incomodar a atenção dos que a observam como coisa curiosa de ver-se.

- Pois não me despeço - redargui - de me ir por aí fora no encalço de Palmira, e mal

dela se a não topo, que morrerá sem ler a sua biografia, desastre comum, mas imerecido, das mulheres da sua espécie. Quantos romances, e dramas, e cantatas, aí pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspásias e Frineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catulos e Ovídios eternizaram Lésbias e Corinas. Menos afrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautières e fazem que as famílias honestas chorem por elas mas páginas dos livros e nas tábuas dos palcos. Palmira há-de ter um livro, ou eu mão escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?

- Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavalo em cada ombro e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos conhecem-no pelo amigo velho. Tem o seu quarto no interior dos melhores

aposentos.

Chama-se ele a si feitor; mas o que ele feitoriza é o seu reumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal e negoceia em lenha e madeiras.

Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhes metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estômago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que ele quer ser sempre ouvido, ou no granjeio das terras, de que ele não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma ele estirar os braços trémulos e dizer: "O que tu precisas é um banho de cisterna." Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.

- E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?

- Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vivedouro. Não o viste lá em casa porque foi para o Alto Minho consoar com a família, tributo que ele pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o mão recebamos com grande alvoroço de alegria. E o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os óculos de modo que as lições caem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez anos de vida naquele ensino. Que mais queres saber?

- Se poderei dormir duas horas em tua casa - respondi eu.

- Vamos partir.

- E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão eles em mim a falta do padre? Previne-me.

Partimos.

À distância de um oitavo de légua do paraíso restaurado do meu amigo, enxergámos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dois ao colo e outros dois pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam numa grilharia bárbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros.

- Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternais - disse eu. - Seriam excelentes anjos aqueles pequerruchos se tivessem laringes mais acomodadas ao aparelho auditivo do género humano!

- São os meus filhos! - exclamou Afonso. - E minha mulher! Ali tenho tudo, o capital, o juro e a usura da felicidade que desbaratei. Ali me esperou minha mãe dois anos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o Céu fora o mais alto ponto onde ela voara para ver de lá a minha perdição. Ali voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flores que eram dela; das primeiras adornei os cabelos de minha mulher; das que me deu a Primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorescência vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe oferece como a intercessora com o Altíssimo. Oh, meu amigo!, de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva".

(continua...)

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