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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

"Seja qual for o mistério, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor é casá-la com o Carlos Maria; a Sonora que espere."

-Você precisa casar, Maria Benedita, disse-lhe dali a dous dias, de manhã, na chácara, em Mata-Cavalos; Maria Benedita tinha ido ao teatro com ela e passara lá a noite.-Não quero estremecimentos; precisa casar e há de casar... Desde anteontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas conversadas em sala ou na rua, não têm força. Aqui na chácara é diferente. E se você tem animo de trepar comigo um pedaço do morro, então é que ficaremos bem. Vamos?

-Está fazendo calor. . .

-É mais poético, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só têm água nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se, assim, eu fico aqui ao pé, armada para tudo. Casa ou morre. Não me replique Você não é feliz,-continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguém? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.

-Não tenho.

-Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escritos no coração; conheço um bom inquilino.

Maria Benedita voltou-se de todo para ela, com os lábios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia recear da proposta ou ansiar por ela. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguém, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessá-lo, instava, rogava, -intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedita esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma delas disse nada.

-Vamos, fale, repetiu D. Fernanda.

-Não tenho que dizer.

D. Fernanda fazia gestos de incredulidade, apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua própria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao ombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscá-lo à lua,-fosse onde fosse,-exceto no cemitério, mas, se estivesse no cemitério, dar-lhe-ia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em pou-cos dias. Maria Benedita ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,-prestes a dizer, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava- mas, como também não sorria, e tremia de comoção, era fácil adivinhar meia verdade, ao menos.

-Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.

Maria Benedita pouco mais resistiu; gastara as forças e sentia a necessidade de revelar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a comovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, à barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por ele. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de índole e de espécie para se converter em adoração pura. A princípio, quando ela via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos,-um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quase um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quase que só este. Tinha chorado muito, consigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que ele era superior a todos os demais homens; um ente divino, que, ainda não fazendo caso dela, mereceria sempre ser adorado.

-Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando à toa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negócio, porque ele casa com outra, os anos passam, a paixão monta na garupa deles, e um dia, quando você menos pensar, acorda sem amor nem marido. E quem é esse bárbaro?

-Isso não digo, respondeu Maria Benedita, levantando-se do banco.

-Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal casar;- não podendo ser com esse será com outro.

-Não, não caso.

-Só com ele?

-Nem sei se com ele, respondeu Maria Benedita, depois de alguns instantes. Gosto dele, como gosto de Deus, que está no Céu.

-Virgem Santíssima! Que blasfêmia! Duas blasfêmias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguém como a Deus,-a segunda é que um marido, ainda sendo mau, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.

CAPÍTULO CXIX

(continua...)

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