Por Coelho Neto (1890)
E ali ficava horas e horas, sob a ardência da luz, bocejando, sonolento e mole, ouvindo os silvos dos trens que passavam ao longe. Nos fundos, era a larga e verde planície cultivada, dividida em hortas e quintais. Laranjais de um verde forte e metálico, carregados de frutos, milhos louros, canaviais que sussurravam num mar verde e irrequieto. Um cheiro forte de seiva subia da terra morna. Aves andavam cacarejando e mariscando nos monturos e a uniformidade da paisagem dava uma impressão fatigante à vista, enfarada de arvoredo e de ervas rasas, onde não aparecia um vulto humano, como se o mesmo sol fosse o único encarregado da lavoura daquelas terras fecundas, que se estendiam dilatadamente perdendo-se num horizonte azulado de montanhas.
Anselmo vivia vegetativamente como aquelas árvores fortes que ali estavam agarradas à terra, sugando-a. Mas o que, em verdade, o prostrava era, por assim dizer, a própria fecundidade. Justamente ele estava como aquelas árvores, cujos ramos roçavam o solo vergados ao peso dos frutos; sentia a inadiável necessidade de expansão, o seu espírito começava a produzir exuberantemente, as idéias caíamlhe do bico da pena como caem dos galhos os frutos maduros, mas a sua atividade espiritual, que se ia esperdiçando, dava-lhe grande tristeza. Tarde, às vezes, não podendo conciliar o sono, enquanto os companheiros dormiam, abria a janela à noite silenciosa e, debruçado à mesa, lia e escrevia e, quanta vez o sol o encontrou absorvido na leitura ou rematando páginas. Um dia resolveu descer. Não podia mais com aquela vida amolentadora e estéril. Pedroso tentou dissuadi-lo propondo-lhe alguns discípulos.
— Não, vou arranjar trabalho. Sinto-me morrer aqui. Esta inércia acabrunhame, não posso mais. Preciso trabalhar...
— Mas para onde vais?
— Não sei, hei de arranjar um jornal. Que diabo! É impossível que não haja um lugar para mim. E que não haja! Aqui não fico... não posso, apodreço!
Pedroso encolheu os ombros resignado e Anselmo, resmungando, foi vestirse.
— Vais sem almoço?
— Vou.
— Almoça primeiro, homem.
— Não.
— Que coisa! Até parece que vais daqui ofendido. Houve alguma coisa contigo?
— Não, nada.
— Então?
— Não posso com isto, Pedroso. Estou ficando neurastênico. Há ocasiões em que tenho vontade de chorar.
— Por quê?
— Sei lá, à toa. É este silêncio, é esta monotonia, é tudo isto que me enfeza, que me irrita. Demais, já é tempo de começar a fazer alguma coisa. Se continuo aqui apodreço. Preciso ir.
— Mas não vais zangado conosco?
— Zangado, por que? Vou para não morrer de tédio. Não posso ficar aqui a olhar milhos que amadurecem e galinhas que chocam. Há mais de seis meses que ando nesta vidinha lânguida de fainéant. É tempo de reagir. — E se não achares emprego?
Com grande confiança ele afirmou:
— Hei de achar!
— Mas vens dormir aqui?
— É possível.
— Bem. Já que insistes não quero contrariar-te. Mas a quem vais falar?
— Ao Patrocínio.
— Já o conheces?
— De vista.
— Por que não arranjas uma apresentação?
— Qual apresentação! Vou e falo. Se me quiser aceitar, muito bem; se não quiser, melhor.
— Qual! Tu tiveste algum aborrecimento, Anselmo. — Não tive, palavra.
Raul, que acompanhara toda a cena sem intervir, sussurrou humildemente:
— Comigo não foi.
— Ó senhores, pelo amor de Deus, que mais querem vocês? Estou aborrecido, mas é disto! E, avançando impetuosamente para a porta, mostrou, num gesto largo, a paisagem quieta, ao sol, e as cabras que iam lentamente com as crias ao longo da estrada deserta e sem sombra. Isto é que me enfastia, é esta coisa reles... Preciso sair daqui, senão estouro. É hediondo tudo isto. Hediondo!
O silvo de uma locomotiva atravessou os ares mornos. Anselmo tomou o chapéu:
— Adeus.
— Então até logo.
— Até logo.
— Não vais zangado?
— Não vou, homem.
— Palavra?
— Palavra. Adeus, Raul! E, tomando a bengala, como a casa distasse muitos metros da estação, deitou a correr pela estrada poente ao sol dourado e quente da manhã gloriosa.
CAPÍTULO XII
Chegando à cidade, ao influxo da grande vida, resfolegou desafogadamente. Saía como de um balseiro ganhando a corrente impetuosa de caudaloso rio que o levava para o além, no curso formidável e irredutível das suas águas e seguiu com a multidão, no enxame fervilhante dos que se encaminhavam pressurosos para o trabalho, à luz alegre de um sol vivo de janeiro.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.