Por Bernardo Guimarães (1883)
— Ah! meu pae! será possivel! — murmurou Rozaura com voz sentida, e tornou-se triste e amuada...
Conrado sorrio-se; tinha sorprehendido no fundo da alma o segredo da filha.
— Não te aflijas, Rozaura; eu tambem conheço Carlos, e até o vi pequenino em Minas na fazenda do pae, que é muito meu conhecido e meu amigo.
— Ah! devéras ! — replicou Rozaura reani- mando—se. — Quanto estimo isso!
Conrado não precisava saber mais para ficar inteirado da natureza dos sentimentos de sua filha para com o seu correspondido. Só lhe faltava agora sondar o coração de Carlos, para o que esperou com impaciencia o dia seguinte.
Quando Carlos sahio da casa de Conrado, e achou-se no meio da rua, ia tão aturdido com o que lhe acabava de acontecer, que parou perplexo sem saber para onde dirigir seus passos. Nesta hesitação ficou parado alguns momentos ; mas depois, levantando os olhos para o sobrado, vio Conrado e Rozaura, que da sacada o contemplavão com ar risonho; envergonhou-se, fez um ligeiro cumprimento, e como quem despertava de um sonho dirigio-se resolutamente para casa de Frederico, com quem morava desde que este o arrancára da rua do Tabatinguéra. Caminhava porém por tal sorte distrahido, tal era a preoccupação e enlevo, em que ia embebido, que não via onde pisava, abalroava um e outro transeunte, e não correspondia aos comprimentos dos collegas e conhecidos, com quem ia encontrando. Levava a alma como que fechada dentro de uma nuvem cor de rosa, cheia de visões e mirao•ens encantadoras, que não lhe permittião ver nada do mundo exterior, emquanto o corpo se movia automaticamente procurando o rumo de casa. O achado que acabava de fazer, sem o procurar, sem o saber, o atordoava. Encontrar Rozaura que elle julgava para sempre perdida, encontrai-a de um dia para outro, livre, rica, em uma posição brilhante, transformada de escrava que era em uma distincta donzella filha de um opulento e amavel cavalheiro, o qual além de tudo era o seu correspondente, o amigo de sua familia, era com effeito um acontecimento que tinha um não sei que de prodigioso; era um sonho das mil e uma noites.
Todavia o azul do horizonte, que lhe sorviã, não era ainda de todo puro e calmo; pairava sobre elle uma nuvemsinha escura, que lhe turbava a serenidade. Terrivel suspeita lavrava por instantes no espirito de Carlos. Apezar de estar bem convencido da honradez e sinceridade do caracter de Conrado, não podia conformar-se com a idéa de que Rozaura fosse sua filha. Conrado era rico, podia satisfazer todos os seus caprichos. Vio Rozaura, encantou-se de sua belleza, não poupou esforços nem dinheiro para obtel-a, comprou-a, libertou-a, levou-a para a casa, e não querendo casar-se com uma liberta, fel-a, ou pretende fazel-a sua amazia. Para cohonestar aos olhos do publico sua convivencia com a gentil menina, procura fazer crer que é sua filha, para o que pouco lhe custará inventar qualquer historia. Carlos tambem não deixára de perceber a alteração, que se manifestápa na physionomia de Conrado ao saber que elle e Rozaura já se conhecido, e esse facto servia para confirmal-o em suas sombrias apprehensões.
Bem se vé que erão apprehensões chimericas e diçparatadas de um espirito enfermo, que tendo surgido como por encanto dos abysmos tenebrosos do infortunio e do desalento, á custo póde abrir os olhos á luz da esperanza e da ventura, tendo ainda diante delles as cataratas da desconfiança.
Não obstante estes pensamentos, por insensatos que fossem, atormentavão cruelmente a imaginação do moço, si bem que fossem contrabalançados por algumas reflexões mais razoaveis, que immediatamente lhe acudião ao espirito. Mas persistia sempre a duvida, esse cancro roedor, que tanto martyriza o espirito e o coração, e Carlos raivava contra o seu correspondente por ter differido para o dia seguinte essas revelações, que devião pÔl-o ao facto do nascimento de Rozaura, e terminar de uma vez todas as incertezas que o atormentavão.
Embebido em seus pensamentos. Carlos percorreo a rua Direita, desceo á Ponte do Pique, subio a longa rua que conduz ao alto da Consolação, em cuja extremidade morava cotu Frederico. Este não estava em casa ; era sabbado,
e segundo o seu costume tinha sahido a passeio, e a visitar os amigos.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.