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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

O silêncio do médico foi a confirmação daquela palavra. Estela sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lágrima. Pôde refletir no perigo de ser vista essa denúncia do mal, e dominou-se. Quando se achou só consigo, deu livre campo às angústias; encarou a catástrofe e pensou nas conseqüências da morte e no incerto futuro que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias médias e dores máximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas somente a conveniência e o raciocínio. No casamento achara os sentimentos de apreço, a mútua consideração, a brandura das relações domésticas; esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol dos primeiros dias, precursor necessário da tarde repousada e da noite tranqüila, esse fogo, essa fusão de duas existências, esse ardor expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estela. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão santificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era a longa duração de uma felicidade segura, embora tíbia; era envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava- lhe a compensação.

Não tinha Estela ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pai seria o último de todos. A viuvez deixá-la-ia sem família. Esta idéia trouxe outra, — a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum vínculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luís Garcia adormecido, Estela deu a perceber à enteada que o estado do pai era grave. Iaiá empalideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.

— A moléstia não é leve decerto, disse este; mas não se segue daí que se deva...

— Tudo se deve prever, tornou Estela. Pela minha parte, entendo que prevenir um caso fatal não é fazer com que ele se dê. Iaiá sabe o amor que lhe tem seu pai; seria para ele uma fortuna poder abençoá-la. Vamos lá, continuou ela, pegando nas mãos de um e de outro, por que é que se não casam?

Momentaneamente acanhados, nenhum deles assentiu nem recusou. Iaiá olhava espantada para a madrasta.

— O silêncio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam comigo, não é? Nesse

caso, seremos três para fazer a cousa mais simples do mundo, que é casar duas criaturas que se amam... Por que não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro de poucos dias, à capucha, cousa simples... Iaiá tinha enfim saído do primeiro instante de estupefação.

— Mas, papai, está mal? disse ela.

— Todos nós estamos mal, apesar de termos saúde, respondeu Estela; num dia cai a casa. A doença dele é grave, é coração...

— Tem razão, interveio Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou três. Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estela; e conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois examinou-se a si próprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi antes lição e filosofia. Mentalmente sorriu. Era ele o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto às soluções trágicas; agora, com igual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um ósculo medroso e casto, ele, que novamente arrebatava dos lábios da outra as primícias do pudor. O homem não era o mesmo. Jorge advertiu que um abismo separava as duas estações de sua vida, e concluiu que não era volúvel o coração dele, mas que uma lei regia os sentimentos, como os caracteres, estatuto universal e comum. Embora a isenção presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.

— Aquele orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia ele. No dia seguinte, Procópio Dias veio acordá-lo em casa.

— Quando chegou? perguntou Jorge.

— Ontem de tarde, e a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais do que queria; mas enfim cá estou, — cá estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.

Procópio Dias falou compridamente da política argentina e da magistratura de Buenos Aires; falou também um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos estrangeira; Jorge, porém, falava pouco e sem apetite; seu constrangimento foi visível quando Procópio Dias o interrogou, acerca da família de Luís Garcia; respondeu-lhe sem interesse. Procópio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.

— E Iaiá? disse ele; parece-lhe então que nenhuma esperança...

Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procópio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após um silêncio largo, entrou a rir de bom humor.

— Quer que lhe diga uma cousa? perguntou ele. Saiba que volto curado. Quando penso na moléstia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para cavalarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha idade, é uma espécie de beribéri... Há de ter-se rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.

(continua...)

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