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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Adivinho que os meus companheiros de viagem sentem-se possuídos da mais doce consolação ao entrar no último quarteirão da Rua do Ouvidor, onde têm de receber as minhas despedidas e de respirar livres de mim.

A consolação realmente é pouco lisonjeira para o meu amor-próprio de memorista; é, porém, muito natural que desejem viajantes, e ainda mais viajantes obrigados, chegar ao termo de suas fadigas.

Podem crer que eu também estou cansado de tão longa viagem, e tanto mais que chega já a me parecer meu destino o ter de repetir o que disse o Lopez do Paraguai, quando fugia, subindo a serra: Il faut finir pour commencer.

Sigamos pois, mas preparem-se, armem-se de paciência os meus companheiros e leitores, porque, neste pequeno quarteirão, temos muito que ver e que lembrar.

Logo na quina da rua, então chamada da Vala e agora da Uruguaiana, a Rua do Ouvidor apresentava ao lado esquerdo a casa de três pavimentos, que ainda hoje se vê, e que abre porta e corredor de entrada para aquela tendo defronte na quina do lado direito casa de dois pavimentos ou sobrado de um só andar, como atualmente se conserva.

Ambos esses tetos devem guardar, senão importantes, ao menos curiosas recordações.

Foi no segundo desses sobrados, no de um só andar e ainda então mal-acabado, que em 181..., desembarcando na cidade do Rio de Janeiro, se abrigaram José Clemente Pereira, que tão elevada posição social tinha de ocupar no Império do Brasil, e o Macamboa, que ai começou a exercer modestamente a advocacia, e que em 1821 celebrizou seu nome na bernarda de fevereiro.

O outro, o sobrado de dois andares, gozou, em 1822, fama ocasional e efêmera, mas um pouco romanesca.

Habitava, não sei desde quando, em um dos pavimentos superiores dessa casa, ou ocupava ambos, moça de beleza tão notável, como de costumes fáceis e sem escrúpulos. Era, dizem, lindíssima de rosto, e seu corpo ostentava formas, contornos admiráveis, que um estatuário tomaria por modelo, mas infelizmente, pobre mulher sem recato, era anjo decaído, infeliz transviada.

Natural da província de Minas Gerais, tinha vindo para a cidade do Rio de Janeiro talvez muito recentemente, porque era ainda bem jovem, pouco mais de vinte anos contando; havia, porém, no seu passado de ontem, de menina, lá na província natal algum segredo de sinistro amor, como o da Perpétua Mineira, mas ao contrário desta nos primeiros tempos da saleta de pasto à mineira era tão alegre e parecia tão feliz no seu transviamento que se afigurava não ter consciência da sua degradação na sociedade.

Vivia só com uma escrava africana ou alugada ou própria.

Essa linda moça era geralmente conhecida e tratada pelo diminutivo do seu nome batismal; como porém tenho algumas dúvidas sobre ele, dou-lhe o nome de Francisca, e fica entendido que a tratavam por Chiquinha.

E convêm ainda dizer que a Chiquinha pecava por seus costumes fáceis e sem escrúpulos, como já escrevi, mas estava longe da prática escandalosa do vício que hoje tão numerosamente corrompe e envergonha a cidade do Rio de Janeiro.

Ela era transviada, mas do gênero em que se mostrou a Perpétua Mineira, no último período de sua vida: sofismava quanto podia a indignidade de sua vida.

Ao lado esquerdo da rua seguiam-se casas quase todas térreas, e muito mais afastado para o Largo de S. Francisco de Paula o espaçoso sobrado de Luís José de Carvalho e Melo, depois Visconde da Cachoeira.(que será oportunamente lembrado).

Ao lado direito depois do sobrado da esquina alinhavam-se casas também térreas, em uma das quais, talvez na que foi mais tarde Farmácia Souller, ou em outra abaixo, morava o pouco afortunado Bernardo Avelino, que provavelmente devia sua ingrata fortuna ao fato de o terem em conta de poeta, porque rimava com facilidade, e muitas vezes com felicidade, compondo sonetos, glosando quadras e escrevendo cantos poéticos que tiveram sua voga, mas não rendiam dinheiro.

Tais eram os dois principais, conhecidos e nomeados ou distintos vizinhos da bela Chiquinha, que com o seu rosto todo branco lírio sem auxílio de pó-de-arroz nem de velutine, com suas faces de rosas sem socorro de carmim, com seus cabelos pretos e longos, que excluíam a idéia de crescentes de hoje, com seu corpo tão bem-feito e de formas tão graciosas que repudiava como insulto a ousadia de um postiço, reclamava e impunha adorações, mas só as recebia ou de caprichosa escolha, ou de inconfessável interesse.

Luís José de Carvalho e Melo, o vizinho do lado esquerdo da rua, homem ilustrado e estudioso, grave, respeitável, honradíssimo magistrado, de posição oficial distinta e honesto chefe de família, não dava a menor importância aos merecimentos físicos da Chiquinha, e esta de todo menosprezava o poeta, vizinho do lado direito, que se sentia sempre do lado sinistro, quando se metia a fazer a corte quer em prosa quer em verso à linda moça.

(continua...)

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