Por Eça de Queirós (1925)
— Não é lá de politica que eu fallo, acudiu Melchior, chupando o fundo do calice de cognac isso são historias! O que eu digo é cá esta liberdadezinha ! Uma cavaqueira com um bom amigo, uma comidazinhan'um hotel conhecido • • • bella rapaziada. O mais é parvoíce !
Arthur que a preoccupação poetica torturava, disse então, um pouco embaraçado, com um sorriso artificial :
—A proposito de liberdade . . . Se o meu amigo não acha maçada . . . queria que me desse a sua opinião sobre alguns versos . . . sobretudo uma Ode á Liberdade. Talvez não desgoste
Melchior bebeu d'um trago outro calice de cognac e limpando precipitadamente os beiços :
— Ás ordens !
E levantaram-se ambos.
Arthur, ao subir para o quarto, sentia « colicas
Ia emfim mostrar a sua litteratura a um jornalista, a um critico, a um lisboeta. Abriu o manuscripto com uma tremura nas mãos :
— Que tal lhe parece o titulo, Esmaltes e Joias ? Melchior, gae se sentara aos pés da cama, pesado do almoço, disse, agradado :
— Tem chic.
Arthur procurou a folha, cuspilhou, e começou :
ODE Á LIBERDADE
Eil-a que se ergue na collina santa A Santa Liberdade.
Contempla o céu e desgrenhada canta:
Acorda, humanidade!
E seguia-se, no mesmo desenho estrophico, um longo monologo da Liberdade : amaldiçoava os Reis, bemdizia os povos ; dizia-se « virgem immaculada, visão aerea, pomba da arca e bonina do valle » ; promettia cearas aos humildes, gargalheiras aos grandes ; exaltava a tunica de Christo e as algemas de Spartacus ; e, brandindo no ar da manhã uma espada mystica, terminava clamando :
A hora já soou, a Aurora vem .
Baqueia a realeza I
E já se ouve na cidade além,
Rugir a Marselheza I
— Que lhe parece ? — perguntou Arthur, ainda offegante de excitação declamatoria.
— Está forte, está forte que tem diabo ! —E Melchior, olhando-o quasi com terror, accrescentou : — Safa, o amigo tem idéas muito exaltadas !
Jogo Communa p'ra frente, hein Irra ! — Mas se me dá licença, escapou-lhe ahi uma cacophonia. É quando a Liberdade entra e diz que arrasta o manto . . . Ora leia.
Arthur releu, inquieto ; era uma das suas estrophes queridas :
Chamaes-me, Cidadãos? Eu aqui estou: Alas á Liberdade:
Nunca cauda mais pura se arrastou Nas Iages da cidadel
— Ahi está ! — exclamou Melchior. — Cacophonia. Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas vê, nunca cauda ca-cau . . . cacau ! Eu pego desculpa, mas ás vezes são cousas que escapam ! E aqui em Lisboa, a critica começa logo a pegar ! É muito severa, é de tremer ! Começam logo a achincalhar ; ca-cau, cacau do Brazil, chocolate É o diabo ! O amigo tenha paciencia. São cousas em que é necessaria muita cautela !
Arthur estava escarlate ; aquella cacophcnia na sua ode envergonhava-o tanto como um piolho que lhe encontrassem na gola do fraque ; riscou logo o verso com rancor. Aquillo naturalmente escaparalhe ao copiar. E para se desforrar — quiz lêr a Rosa ao Valle.
Mas Melchior acudiu :
— Olhe que já se faz tarde para o Victorino, veja lá ! — E com um tom profundo : — É melhor irmos ao Victorino !
Como lhe devia uma conta e o Victorino se impacientava, Melchior aproveitava com jubilo aquella opportuuidade de «o adoçar» levando-lhe um freguez rico — e ia pela rua, muito chegado a Arthur, aconselhando-lhe despezas :
— Faça casaca, deve fazer casaca ! Em Lisboa é essencial . . . é a especialidade do Victorino ! — apertando lhe o braço, muito grave : — sobre casaca É de rigor !
Subiram a um terceiro andar, e n*uma saleta com transparentes côr d'oca na janella e raros cortes de panno n'uma prateleira envidraçada, o Victorino, um magricellas coxo, côr de limão, recebeu-os aos pulinhos sobre a muleta ; havia um vago cheiro a refogado ; n'um quarto proximo ouvia-se o rabujar d'uma creança e o tic-tic-tic d'uma machina de costura — que fez lembrar a Arthur o estabelecimenIto triste do Serrão, o seu alfaiate de Oliveira. De sejaria ter ido a alguma casa com rimas de fazendas no chão, figurinos pelas mesas e altos espelhos nas paredes, mas dominado pela loquacidade do Victorino, pelos conselhos enthusiastas de na vaga inercia molle que lhe dera o almoço e o sol calido da rua, consentiu em encommendar uma casaca, uma sobrecasaca, calças, e um fato de mescla, sem enthusiasmo, muito descontente com as fazendas ; alludiu mesmo, mais por complacencia com o Melchior do que por influencia do seu antigo sonho, a um robe-de-chambre de trabalho, apertado por cordões de borla.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.