Por Eça de Queirós (1900)
Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, também ele, nas linhas primeiras do Capítulo, esboçara o velho abatido sobre um escanho, com lágrimas reluzentes sobre as barbas brancas, as duras mãos descaídas como as de lânguida dona - enquanto que nas lajes, batendo a cauda, os seus dois lebreus o contemplam numa simpatia ansiada e quase humana. Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coerente com a alma tão indomavelmente violenta do avô Tructesindo. O tio Duarte, da casa das Balsas, não era um Ramires, não sentia hereditariamente a fortaleza da raça: - e, romântico plangente de 1848, inundara logo de prantos românticos a face férrea de um lidador do século XII, dum companheiro de Sancho I! Ele porém devia restabelecer os espíritos do Senhor de Santa Irenéia dentro da realidade épica. E, riscando logo esse descorado e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo todo o castelo de Santa Irenéia duma irada e rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples, Tructesindo não cuida do filho - adia a desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se comete a apressar os aprestos da mesnada, para correr ele sobre Montemor, e levar às Senhoras Infantas os socorros de que as privara a emboscada de Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico homem com o Adail, na sala de armas, regia a ordem da arrancada - eis que os esculcas, abrigados do calor de agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para além do arvoredo da Ribeira, coriscos de armas, uma cavalgada subindo para Santa Irenéia. O Vílico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando aos eirados da torre albarrã - e reconhece o pendão de Lopo de Baião, o seu toque de trompas à mourisca, arrastado e triste no silêncio dos campos. Então arqueia as cabeludas mãos na boca, atira o alarido:
- Armas, armas! que é gente de Baião!... Besteiros, às quadrelas! Homens em chusma às levadiças da cárcova!
E Gonçalo, coçando a testa com a rama da pena, rebuscava ainda outros verídicos brados, de bravo som Afonsino - quando a porta da livraria abriu cautelosamente, através daquele perro rangido que o desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:
- O Sr. Dr. não poderia descer cá baixo à cozinha?
Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem compreender:
- A cozinha?...
- E que está lá a mulher do Cascô a levantar uma celeuma. Parece que lhe prenderam o homemesta tarde... Apareceu aí por baixo de água, com os pequenos, até um de mama. Quer por força falar com o Sr. Dr. E não se cala, lavada em lágrimas, de joelhos com os filhos, que é mesmo uma Inês de Castro!
Gonçalo murmurou: "que maçada!" E que contrariedade! A mulher, numa agonia, entre gritos, arrastando os filhos suplicantes até o portão da Torre! E ele, nas vésperas da sua Eleição, aparecendo a todas as freguesias enternecidas como um Fidalgo desumano!... Atirou a pena furiosamente:
- Que maçada! Dize à criatura que me deixe, que se não aflija... O Sr. Administrador amanhãmanda soltar o Casco. Eu mesmo vou a Vila-Clara, antes do almoço, para pedir. Que se não aflija, que não aterre os pequenos... Corre, dize, homem!
Mas o Bento não despegava da porta:
- Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha não acredita, quer pedir ao Sr. Dr.! Veiopor baixo de água. Até um dos pequenitos está bem doentinho, ainda não fez senão tremer...
Então Gonçalo, sensibilizado, atirou à mesa um murro que tresmalhou as tiras da Novela:
- Ora se uma coisa destas se atura! Um homem que me quis matar! E agora, por cima, é sobremim que desabam as lágrimas, e as cenas, e a criança doente! Não se pode viver nesta terra! Um dia vendo casa e quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde não haja maçadas... Bem, dize à mulher que já desço.
O Bento aprovou, com efusão:
- Pois se o Sr. Dr. lhe não custa... E como é para dar uma boa nova... Sempre consola a pobremulherzinha!...
- Lá vou, homem, lá vou! Não me maces também... Impossível trabalhar nesta casa! Outra noiteperdida!
Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas - com a idéia de meter na algibeira do roupão duas notas de dez tostões que consolariam os pequenos. Mas, diante da gaveta, recuou, vexado. Que brutal idade, compensar com dinheiro criancinhas - a quem ele arrancara o pai, algemado, para o trancar numa enxovia! Agarrou simplesmente numa boceta de alperces secos - dos famosos alperces do Convento de Santa-Brígida, de Oliveira, que na véspera lhe mandara Gracinha. E, cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua severidade, tão estouvada, que assim desmanchava a quietação de um casal. Depois no corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas lajes do pátio, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar no corredor da cozinha - tremia como um culpado.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.