Por Coelho Neto (1890)
Pedroso conhecera o Raul na caixa da Fênix, quando por lá andara enamoradamente, com grandes ramos de rosas, seguindo os passos de uma atriz. O professor tinha também certa "queda" para o palco. Não fossem delicados escrúpulos: a família, os alunos... e teria aceitado um convite que lhe fez o Galvão no tempo do idílio, mas o macambúzio Alfredo chamou-o à ordem salvando-o, em tempo, de uma queda fatal no conceito do público e na comparsaria. Consolava-se fazendo "galãs" em teatrinhos particulares. Era melífluo, ajoelhava-se, com muita expressão, aos pés das damas, rente da caixa do ponto para falar com segurança do seu amor. Alfredo era circunspecto — estudava ciências exatas, não fumava, recolhia-se muito cedo e evitava os olhares das mocinhas da vizinhança. Comiam em casa: o Raul cozinhava por economia e, à mesa, os companheiros, gratos, ouviam a história dos seus triunfos no teatro da rua da Ajuda.
Anselmo, posto que não tivesse os cômodos que sonhara, viveu com certo conforto, dormindo à sombra do Raul que roncava como um vulcão.
Foi nesse homizio que ele fez os seus melhores estudos literários. O Raul, que o admirava, ficando em casa enquanto os dois irmãos iam explicar os substantivos e os teoremas, metia-se num canto com um maço de comédias e lia, rindo às gargalhadas, enquanto Anselmo, de papo para o ar, devorava Shakespeare, Dante, Ariosto e quantos poetas lhe caíam nas mãos, por empréstimo, porque os seus livros estavam lidos, relidos e vendidos.
À noite, às vezes, serenatas passavam pela rua silenciosa enfurecendo os cães que investiam e Pedroso, sempre jucundo, abria as portas da casa ao grupo ou seguia com ele a percorrer o bairro adormecido. Anselmo nem sempre o acompanhava, preferia ficar preguiçosamente em casa lendo ou palestrando.
Raramente descia à cidade. Refazia-se física e espiritualmente preparandose para o grande dia em que tencionava aparecer sobraçando os originais do primeiro volume da grande série.
Os rapazes falavam do seu sumiço, faziam conjecturas e ele continuava tranqüilamente os seus estudos.
Ruy Vaz, instalado definitivamente no palacete do visconde, engordava e tinha quase concluído o seu romance. Um incidente, porém, alvoroçou o estudante: o Alfredo, sempre taciturno, descobriu, uma manhã, na fronha alva do travesseiro, uma mancha de sangue e, como houvesse na família vários casos de tuberculose, ficou alarmado decidindo, desde logo, mudar-se para o campo onde houvesse ar puro e árvores e, com precipitação, não querendo dar tempo à moléstia, meteu-se num trem e foi correr os subúrbios achando uma casa modesta, de feição campestre, com muito terreno arborizado e uma cacimba, em Cascadura, numa larga estrada quase deserta que levava aos montes.
A mudança foi feita num dia. Anselmo, à lembrança de viver em tão arredado sítio, hesitou antes de permitir que a sua canastra fosse despachada, mas Raul e Pedroso convenceram-no, falando-lhe do silêncio do campo, propício à meditação e ao estudo, bom ar saudável, da água excelente, dos saborosos frutos e Anselmo deixou-se levar, não prometendo demorar-se porque tencionava arranjar um lugar na imprensa que, ao menos, lhe desse para casa e comida.
A casa era realmente pitoresca. Toda branca na verdura de um pomar e única na estrada areenta onde andavam soltos carneiros, cabras e grandes cevados grunhidores. Nas dimensões era um cacifro.
Raul reclamou contra as portas estreitas. Sempre prosperando em banhas, receava que, uma manhã, acordando, fosse obrigado a demolir a parede do quarto abrindo brecha para passar. Comiam em um hotelzinho, onde a gente da Estrada de Ferro costumava fazer os seus regabofes. De manhã, saindo em grupo, iam a um quiosque para o café. À noite dirigiam-se à estação para conversar e viam chegar e partir os trens e, quando os expressos silvavam, ao longe, paravam agarrados às colunas, com os olhos além, até que, na grande sombra, luzia o olho imenso da locomotiva, e vinha crescendo, crescendo, ouvia-se o rumor e o chiado, e rápido, repentino, o comboio passava levantando um grande vento. Mal se avistavam vultos brancos e lá ia ele curveteando, era uma luzinha que fugia como um vaga-lume e desaparecia na sombra. Logo, porém, outro comboio chegava lentamente, parando junto à estação, à espera de passageiros e outro vinha da cidade, bufando. Saía gente, a locomotiva, desengatada, parda veloz para a manobra no virador e os empregados iam examinar os carros, batendo-lhes nos eixos. Na plataforma iluminada reuniam-se rapazes, moças passeavam, e uma velha negra, aleijada, cochilava a um canto diante de uma bandeja, apregoando, de instante a instante, com uma voz triste, cocadinhas e balas. Anselmo achava aquilo hediondo.
A vida insípida e monótona enchia-o de tédio e desalentava-o. Da manhã à noite era o mesmo, invariável espetáculo da natureza campestre, a mesma vida de rusticidade. Se chegava à janela, os olhos encontravam apenas a estrada larga e deserta, branca, escaldando ao sol. De quando em quando, um homem que descia da sua roça, na vertente dos morros, sozinho, cantando ou com a bestinha lenta carregada, ou negras que tinham ido às compras e tornavam aos seus casebres com embrulhos, o cachimbo nos beiços, descalças, levantando uma poeira fina e dourada
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.