Por Bernardo Guimarães (1883)
Este se comprazia com justo e bem fundado orgulho em apresentar Rozaura como sua filha aos seus intimos amigos, e em lhes contar a modo extraordinario e quasi miraculoso, pelo qual o céo lhe concedera uma filha já grande, formosa e dotada em tão alto gráo de todos os attractivos physicos e moraes. Omittia entretanto ou alterava certas circumstancias a fim de evitar indagações, e desviar toda e qualquer suspeita que pudesse pairar sobre a verdadeira mãe de Rozaura. Assim dizia que ella nascera em Curitiba, e que sua mãe já não existia. Quanto ao mais alterando sómente os nomes das pessoas e dos logares narrava com toda minudencia e fidelidade o singular acontecimento que lhe tinha dado uma filha, com cuja existencia elle nem sonhava. Com o coração ermo de affectos, como até alli tinha vivido, tendo sempre presentes ao espirito tristes e amargas recordações do seu infeliz passado, Conrado não cessava de congratular-se com sua sorte, e bemdizer o céo que, preservando e restituindo-lhe a filha, vinha reatar seu doloroso passado a um risonho e esperançoso futuro pelos laços tão suaves e affectuosos do amor paterno. Rozaura era uma flór candida e mi- mosa, que de chofre lhe desabrochou sob os passos como por encanto em toda a plenitude do viço e louçania para embalsamar-lhe o outono da vida com seu delicado perfume.
Conrado, pois, que tinha especial sympathia e estima pelo seu correspondido, não podia deixar de apresentar-lhe sua filha e dar—lhe conta tambem do modo singular por que o destino o levára a deparar com tão precioso achado. A sorpreza que causou-lhe o conhecimento reciproco dos dois jovens, o tornou pensativo.
O amor que já mutuamente se consagravào, era facto que quanto mais reflectia, mais claramente se lhe apresentava ao espirito,
A enfermidade e abatimento physico e moral de Carlos e a declaração, que lhe havia feito de que seus incommodos não erão daquelles que se cupão pelos recursos da medicina, nem pelos cuidados dos homens, bem denunciavão que havia alli uma causa moral profunda e persistente, e essa causa não podia ser outra sinão o amor de Rozaura. Como porém seu espirito se perdesse em um cháos de conjecturas mais ou menos razoaveis, sobre as quaes lhe era mistér reflectir com mais socego, deliberou aprazar para o dia seguinte o que tinha de communicar ao mancebo.
Tudo conspirava para convencel-o de que entre os dois jovens existia paixão reciproca, amor puro e sincero; os ventos todos sopravão na direcção de suas conjecturas, e talvez mesmo de seus desejos.
Todavia, antes de fazer a Carlos declarações mais intimas, julgou prudente sondar de anteInão as disposições do coração da filha. Isto foilhe mui facil ; o coração puro é como a fonte limpida que nada esconde em seu fundo.
Desde que tinha em casa sua filha, Conrado havia notado, que a despeito da immensa alegria, que ella sentia por ter por assim dizer nascido de novo em um mundo estranho, por ter sido arrancada pela mão benefica da Providencia do inferno da escravidão para um céo de venturas, onde ao lado da liberdade vinha encontrar pae e mãe; uma leve nuvem de tristeza pairava de quando em quando sobre aquella fronte tão pura, tão radiantc de candura e dc innocencia. Por vezes a sorprehendera em tal estado de melancolia, que não podia deixar de interrogal-a ; ella porém respondia que seu desgosto provinha unicamente de ter mãe tão boa e tão perto de si, e não poder viver com ella, abraçal-a e beijal-a todos os dias, e nem mesmo poder dar-lhe em publico o doce nome de mãe. Em motivo tão justo, e aliás verdadeiro, mas que não era o unico nem o mais poderoso de seus melancolicos devaneios, não deixava de satisfazer algum tanto a anciosa e solicita curiosidade de Conrado. Depois, porém, que se deo o encontro entre ella e o seu joven correspondido, as idéas de Conrado tomárão outra direcção. Não conhecia bem ainda a indole e o temperamento de Rozaura, mas mesmo assim comprehendia perfeitamente que aquella melancolia não era muito compativel com a sua edade, nem podia constituir seu estado normal, e devia ser resultado de algum sentimento contrariado; que alguma cousa, fosse o que fosse, faltava para a completa felicidade de sua filha.
Depois porém que em sua presença Carlos e Rozaura se encontrárão em face um do outro, a luz foi-se fazendo diante de seus olhos.
Desde que Cartos lá appareceo, a physiono. mico da moça foi-se modificando de um modo tão sensivel, que não poude escapar ás vistas perspicazes e escrutadoras de Conrado.
O vivo rubor que lhe assomára ás faces, logo que deo com os olhos no mancebo, nunca mais se apagou, apenas desmaiou um pouco, depois que elle se retirou, e assim se conscrvou até o dia seguinte. Erão as rosas do amor que reflorião de novo ao bafejo da esperança naquella candido e encantador semelhante. Os sorrisos lhe adejavão espontaneos pelos [abios, e nos olhos lhe scintillava um fulgor sereno e bonançoso como o de uma manhã de abril. Nesse dia Conrado não vio mais no rosto de sua filha nem a mais leve sombra de tristeza.
Depois de ter notado com particular attenção aquelles symptomas, Conrado procurando encobrir sua intenção e sem muita insistencia fez á sua filha algumas perguntas a respeito de Carlos.
Então já conhecias este moço que te apresentei hoje, — perguntou, affectando indifferença.
Já, sim senhor; era nosso vizinho na rua do Tabatinguéra, respondeo Rozaura bastantemente enleiada.
— E que tal te parece elle?
— Me parece muito bom moço.
— Qual bom moço ! é um esturdio como todos os seus companheiros... basta ser estudante.
—Oh! meu pae ! . . . não diga isso, — exclamou
com toda a vivacidade e com toda a ingenuidade a menina. É porque meu pae não o conhece. Este não é como os outros; é muito bem creado, e tem tão bons modos...
— São apparencias, minha filha; não acredites muito nesses sujeitinhos. Não é de hoje que os conheço. Esse Carlos mesmo, si não é um maluco ou um devasso como os outros, talvez não passe de um refinado hypocrita.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.