Por Visconde de Taunay (1872)
Ah! a perspectiva que pode mais docemente sorrir ao meu coração é a do aniquilamento.
(Klopstock, A Messiada)
Cirino, logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de lhe captar as simpatias. Medicou um escravo
que estava de cama, fez valer o conhecimento e amizade que tinha com
Pereira, conversou muito a respeito dele e incidentemente deu noticias de Inocência.
Atalhou-o Antônio Cesário neste ponto.
—Mecê a viu? perguntou ele.
—Pois não, respondeu o moço, por sinal que a curei de sezões.
—Ah! É uma guapa rapariga...
—Parece-me...
—Isso é... falo assim, porque afinal... daqui a poucos dias está casada... não sabe?
—Ouvi contar.
—Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É homem de mão-cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar casamentos as cegas, e às vezes se encambulha um mocetão com uma fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo engrouvinhado...Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...
Achou Cirino a ocasião própria e redargüiu com vivacidade:
—Então o senhor não é desse parecer.
— Conforme, respondeu logo Cesário com reserva. Aos pais é que convém inziminar essas coisas.
—Boa dúvida... Mas... se... sua afilhada... não gostasse de Manecão?
—Não gostasse?
—Sim.
—E que nos importa isso? Uma menina como ela não sabe o que lhe fica bem ou mal... Ninguém a vai consultar. Mulheres, o que querem é casar. Não ouviu já o patrício dizer que elas não casam com carrapato, porque não sabem qual é o macho?
E Cesário sorriu.
Depois, fechando de repente a cara, perguntou:
—Por que é que estamos a dar de língua nesse particular? Não sou amigo disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador. . .
—Eu? protestou Cirino com vivacidade.
—Boa dúvida. Eu cá nem falar nelas quero. Mulher é para viver muito quietinha perto do tear, tratar dos filhos e criá-los no temor de Deus; não é nem para parolar-se com ela, nem a respeito dela.
Sempre as mesmas teorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de desprezo ao sexo fraco, a mesma suscetibilidade para desconfiar de qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem soante aos prevenidos ouvidos.
—Minha afilhada, continuou Cesário, deve levantar as mãos para o céu.
Achou um marido que a há de fazer feliz e torná-la mãe de uma boa dúzia de filhos. Estremeceu Cirino, mas nada disse.
Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia vencer.
Nessa mesma tarde quis montar a cavalo e voltar para Sant'Ana entretanto, o pensamento da resistência com que Inocência encetara a terrível lata com seu pai, atuou em seu espírito e o reteve.
Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.
Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido arriscava ainda ousado lance.
—Senhor Cesário, disse ele na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em particular.
—A mim?
—Sim, senhor.
—Pois, estou aqui às suas ordens.
—Quisera que saíssemos. O que lhe vou dizer... ninguém pode... ninguém deve ouvir.
—Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?
—Tenho...
—Pois vá lá... Mapiaremos fora... Ao meio-dia esteja na minha roga... sabe onde é?
—Sei...
— Espere-me num pau de peroba seco que está derrubado. —Lá estarei.
Muito antes da hora aprazada, achava-se Cirino no lugar indicado.
Devorava-o a impaciência.
Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mui conhecia, que por ele não tinha senão razões de passageira simpatia, e de quem, contudo, estava dependente sua felicidade, considerava decisivos os momentos.
Quem em tais circunstâncias se acha, enxerga em tudo quanto o rodela sintomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cirino pouco parecia sorrir a natureza.
Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.
Tinha o céu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.
Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área, pés de milho já pendoados, dentre os quais surgiam possantes madeiros de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem, uns, da base à extrema ponta, lugubremente enegrecidos pelo fogo lançado antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em conseqüência da incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da selva. Esses quedavam vivos mas de uma vida latente e esmorecida, denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.