Por Machado de Assis (1876)
— Lido esse papel, estão rotos os vínculos que me prendem a esta casa. A culpa do que me acontece, não é minha, é de outros; aceitarei contudo as conseqüências. Poderei contar ao menos com a sua bênção?
A resposta do padre foi pousar-lhe um beijo na fronte, beijo de absolvição ou de demência, que ela lhe pagou com muitos na destra enrugada e trêmula de comoção. Helena precipitou-se depois para o corredor, deixando o padre só, com a carta nas mãos, sem ousar abri-la, receoso dos males que iam dali sair, sem certeza ao menos de que ficaria no fundo a esperança. Ia abri-la, e hesitou se o devia fazer na ausência de Estácio e D. Úrsula; venceu o escrúpulo e leu.
D. Úrsula, que entrou na ocasião em que ele fechava a carta, recuou aterrada. Melchior estava pálido como um defunto. Antes que nenhum deles falasse, entrou Estácio na saleta. Melchior dirigiu-se a ele e entregou a carta. Leu-a Estácio e dizia assim:
“Minha boa filha. Sei pelo Vicente que alguma coisa aí há que te aflige. Presumo adivinhar o que é. O Estácio esteve comigo, logo depois que daqui saíste a última vez. Entrou desconfiado, e deu como razão ou pretexto a necessidade de curar algumas feridas feitas na mão. Talvez ele próprio as fizesse para entrar aqui em casa. Interrogou-me; respondi conforme pedia o caso. Supondo que ele soubesse de tuas visitas, não lhe ocultei a minha pobreza; era o meio de atribuí-las a um sentimento de caridade. A virtude serviu assim de capa a impulsos da natureza. Não é isso em grande parte o teor da vida humana? Fiquei, entretanto, inquieto; talvez lhe não arrancasse o espinho do coração. Pelo que me disse o Vicente, receio que assim acontecesse. Conta-me o que há, pobre filha do coração; não me escondas nada. Em todo caso, procede com cautela. Não provoques nenhum rompimento. Se for preciso, deixa de vir aqui algumas semanas ou meses. Contentar-me-ia a idéia de saber que vives em paz e feliz. Abençôo-te, Helena, com quanta efusão pode haver no peito do mais venturoso dos pais, a quem a fortuna, tirando tudo, não tirou o gosto de se sentir amado por ti. Adeus. Escreve-me. — Salvador.
“P. S. Recebi o teu bilhete. Pelo amor de Deus, não faças nada; não saias daí; seria um escândalo.”
Estácio não compreendeu desde logo o que acabava de ler. A verdade parecia inverossímil, O primeiro movimento foi sair dali e ir ter com Helena. Melchior deteve-o a tempo.
— Não precipitemos nada, disse ele. Sossegue primeiro.
Estácio deixou-se cair numa cadeira. Melchior comunicou o conteúdo da carta a D. Úrsula, cujo pasmo foi ainda mais profundo que o do sobrinho, porque ela não soltou uma palavra, não fez um gesto; ficou a olhar estupidamente para o papel. Houve então entre aqueles três personagens dez minutos de mortal silêncio. D. Úrsula não pensava; olhava para a carta, logo depois para o sobrinho e o padre, como a esperar uma conclusão que seu próprio espírito não podia deduzir dos acontecimentos. Estácio ficara desorientado; em vão procurava um fio de dedução entre as idéias; a revelação nova era uma complicação mais. Se a carta era sincera, como explicar a declaração testamentária de seu pai? Se o não era, como explicar a audácia de semelhante invenção? Ele não podia discernir o que era favorável a Helena, nem ousava afirmar o que lhe era adverso.
No meio daquela família, arriscada a dispersar-se, Melchior considerava a superioridade da morte sobre alguns lances terríveis da vida. Se o óbito de Helena tomara o lugar da carta, a dor seria violenta, mas o irremediável desfecho e o consolo da Religião teriam contribuído para sarar a alma dos que ficassem e converter o desespero de alguns dias na saudade da vida inteira. Em vez disto, estava ele, talvez, diante de um destino aniquilado; via um abismo possível entre corações que a vontade de um morto vinculara. Qualquer que fosse a veracidade da carta, o resultado era talvez esse.
Melchior foi dali ter com Helena, para alcançar mais detida explicação do que acabava de ler. Ela ergueu-se quando o viu, e pareceu reviver ao contemplar o gesto benévolo com que ele lhe falou. Um longo suspiro de alívio rompeu-lhe o coração: os braços caíram sobre os ombros do padre, em cujo seio escondeu o rosto e repousou enfim, — um minuto — das dores que a afligiam.
Perdoaram-me? disse ela.
Hão de perdoar; conte-me tudo.
Oh! não posso, não sei; sei que é meu pai.
O capelão não insistiu; voltou aos outros dois, a quem achou na posição em que os deixara. Interrogaram-no com os olhos.
Nada, disse ele. O coração dela não possui nesta ocasião a necessária força para responder a quanto se lhe devia perguntar; demais não saberá tudo. Temos a primeira confissão da verdade...
Da verdade? interrompeu melancolicamente Estácio. Quem sabe se é verdade o que lemos nesse papel?
É, deve ser. Faltam-nos, é certo, os fundamentos da asseveração; mas eu incumbo- me de ir buscá-los.
Iremos ambos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.