Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Sem dúvida, nessa observação andou malícia da francesa que, de antemão, quereria preparar desculpas. Eu não creio que Júlia tivesse entrado na loja nem comovida, nem hesitante.
A bonita e vaidosa senhora examinou e escolheu três ou quatro toilettes e a convite da modista subiu ao pavimento superior para experimentá-los em sala apropriada.
E poucos momentos depois de entrada na sala, a modista saiu, pretextando ir buscar alfinetes que não achava no toucador.
Apenas a modista passou além da porta, rompeu de gabinete contíguo o belo e audacioso Artur, que se prostrou de joelhos aos pés de Júlia e quis tomar-lhe as mãos para beijá-las.
Coincidência notável!... No momento em que Artur caía assim ajoelhado aos pés de Júlia, Frederico disparava tiro certeiro sobre uma veadinha que expirou ferida no coração.
Mas Júlia surpreendida, assustada e nervosa, como era, desmaiou, caindo em uma otomana.
Entenda-se: desmaiou realmente.
Artur, que estava de joelhos e ia improvisar eloqüente discurso que trazia de cor, levantou-se atônito, vendo Júlia desmaiada.
Que havia de fazer? ir chamar a modista ou gritar por ela era comprometedor à reputação da inocente senhora.
Artur lançou-se para a mesa do toucador, tomou lindo frasquinho de caprichosa forma, que, pelo lugar onde estava, deveria conter água-de-colônia ou alguma essência aromática, abriu o frasquinho e precipite levou-o ao nariz da jovem desmaiada; como porém lhe tremessem as mãos, derramou parte do liquido no formoso rosto.
Ah!... o liquido que o vidro continha era tinta de escrever!...
A modista que certamente procurava alfinetes muito ao perto acudiu logo, e Artur sem mais demora nem ansioso cuidado partiu em retirada tão discreta, que as costureiras da loja que não o tinham visto entrar não o viram sair.
Mas ainda bem que, sedutor perverso e ainda infeliz em seu último plano insidioso e malvado, nem ao menos conseguira beijar as brancas, pequeninas e acetinadas mãos de Júlia.
A bela jovem desmaiada não tardou muito em tornar a si, soltando magoado suspiro; logo depois volveu em torno os olhos, e, não vendo Artur, endireitou-se na otomana, encarou de face a modista, e, quando pôde falar, murmurou ressentida:
- Que traição!...
A modista imodesta, cruel, e ajeitando inverossímil defesa, respondeu docemente:
- Pardon, madame!... eu foi enganada por confiança de rendez-vous ajustade...
Júlia levantou-se indignada ao novo ultraje daquela suspeita injuriosa à sua virtude, e adiantouse dois passos, evidentemente para retirar-se.
- Madame, não pode sair assim, disse a modista.
E Júlia, obrigada a estacar diante do espelho, viu nódoas de tinta preta em seu rosto, e ainda no corpinho de seu vestido branco.
Com efeito era impossível descer à loja e subir à sua carruagem, e mostrar-se ao público assim, como dissera a modista.
Finíssima esponja, odorífero sabonete e água límpida restituíram ao rosto de Júlia sua brancura imaculada, mas o corpinho do vestido a que tinha chegado a tinta de escrever?... era indispensável pelo menos uma e longa hora para regenerá-lo lavado, secado e engomado.
Júlia, ardendo por fugir da casa traiçoeira, sujeitou-se a extremo recurso, trocou seu rico vestido branco por uma das toilettes de fantasias que escolhera.
Mas quando ela atravessou a loja e foi tomar à porta o carro que a esperava, a mais maliciosa das costureiras ao vê-la já de costas e distanciada disse às companheiras:
- Que história foi essa?... ela entrou vestida à vestal e agora sai fantasiada?
Moralidade do romance: às senhoras honestas não basta sê-lo, é indispensável não parecer que deixam de sê-lo.
Júlia trocou a sua espécie de gratidão ao namorador Artur por desprezo profundo.
E depois do seu desmaio na casa da modista corrompida tomou gosto por caçadas de pacas e veados, aprendeu a atirar de espingarda, venceu nervosos estremecimentos de medo, tornou-se mestra na certeza e na prontidão do tiro, e com indizível e delirante paixão do seu Frederico fezse Diana caçadora e sócia constante do seu marido Nemrod.
CAPÍTULO 16
Como por fim chegamos em nossa viagem ao último quarteirão da Rua do Ouvidor, e logo encontramos em pequeno sobrado à mão direita a Chiquinha, tormosa e muito leviana ou imodesta rapariga, de quem foi ditoso apaixonado, em 1822, o ilustre e benemérito patriota Joaquim Gonçalves Ledo, mais feliz do que o poeta Bernardo Avelino, vizinho da Ziquinha, e que por pobre desmerecia os seus agrados; recordam-se notáveis acontecimentos, e a fuga de Ledo para Buenos Aires, entrando por capricho dele a Chiquinha na história. Como, enfim, se fazem notar a casa de sobrado do Visconde da Cachoeira, e deste se trata, e defronte a pequena casa térrea, onde em maio de 1869 se fundou a Reforma.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.