Por Eça de Queirós (1925)
Esteves que assobiava a Somnambula moveu affirmativamente a cabeça.
— Pois estou ás suas ordens — disse Melchior subitamente tranquillo. Tirou do bolso a carta do Rabecaz e sentando-se : — Pois aqui está o que me diz o maganão do Rabecaz : « ahi vae o amigo Ar « thur Corvello, com versos muito catitas e um dra ma que é d'arromba. Aquella cabeça é um mun « do ! Quer conhecer a bella rapaziada litterata e
« como seu bondoso padrinho lhe deixou grossa ma« quia, ahi o tens que quer florear na Capital e en« cher o ventre da bella pandega Arthur protestou logo :
— Não, eu venho sobretudo por causa de drama.
— Ha tempo para tudo ! — disse Melchior, com um grande gesto. — E então demora-se — Naturalmente.
— Pois eu estou ás ordens, disponha de mim. Com franqueza . . . Quando é que V. Ex.a está em casa Eu vou por lá, almoçamos, conversamos, e vamos por ahi vêr o que ha. Serve-lhe ?
Arthur agradeceu, commovido. Melchior foi a um pequeno lavatorio que havia ao canto, lavou as mãos e approximando-se, a puxar as calças para a cinta :
— Ámanhã, por exemplo, hein
— Perfeitamente. Estou no Hotel Hespanhol.
— Oh, Esteves, esses livros que ahi mandaram para annunciar, leva-os ao Salomão, mas não os largues a menos de tres tostões cada um, pelo amor de Deus ! E voltando-se para Arthur : Andiamo ? Ã porta, porém, lamentou não poder acompanhar Arthur ; tinha um rendez-vous.
— Sabe o caminho, não é verdade ? Bem. ímanhã, ás 11, no Hespanhol ! Almocinho simples ! Alt Tight ! Creado de V. Ex.a.
Mas não veio na manhã seguinte, nem ao outro dia. E Arthur, já inquieto, e querendo ao mesmo tempo aproveitar a opportunidade de mostrar estyIo, resolvera escrever-lhe um bilhete muito litterario :
De certo os altos trabalhos Nesse rochedo de Sisypho, que se chama a imprensa, têm-no absorvido e esqueceu-se de que prometteu vir Partilhar commigo do leite e castanhas, de que fallí) o divino Virgi110 . . . ». Tinha fechado o sobrescripto e limpava com agua de colonia uma nodoa do fraque preto, para sahir, quando a porta se devagar e appareceu Melchior.
Ia-lhe justamente mandar carta . — exclamou Arthur.
Melchior allegou affazeres, uma pessoa das suas relações que estivera doente . . .
— Mas estava a limpar o fatiOh0, pelo amor de Deus, não se interrompa ! — minou o fraque e observou como entendedor : —--jsso, só com benzina.
Arthur córou, atirou o fraqoo para uma cadeira e negligentemente :
—É um fraque velho— disse—•— tenho de mandar
fazer fato .. . . serio :
Melchior tomou um ar muita
— Com franqueza, aconselha-lh'o. Em Lisboa é necessario andar bem vestido. Que tal lhe parece
isto ? — E rodava nos calcannores, devagar, mostrando o fato de cheviote clar0-• — Muito chic, não é verdade ? Pois, aqui p'ra —s, mas não o diga, Por quem é, não o diga . . . Dezzasseis mil réis. No Strauss eram quarenta. Heb Que espiga !
E em conclusão, provou-lhe que devia fazer fato no « seu homem que era o Victorino, o Victorino dos Calafates.
— Está decidido, hein Vamos ao Victorino ?
Arthur acceitou logo, com reconhecimento — e desceram para o almoço.
O creado pareceu revêr com alegria o sô Melchiorzinho. Melchior tambem se regosijou d'encontrar o Manuel ; perguntou-lhe mesmo se ainda estava no hotel o Vicente . . . E a Justina que era tão bem feitinha Ah, o Hespanhol já não era o mesmo ! Era egualmente a opinião do Manuel. E tiveram ambos um bamboleamento saudoso de cabeça, deitando o olhar desanimado pela sala, como na muda contemplação de ruinas.
— Uste,d é que sabe, — suspirou o Manuel — usted é que sabe !
O almoço foi longo, copioso, muito saboreado. E, com grande prazer d'ATthur, Melchior fallou longamonte de Lisboa. O que havia de melhor, segundo elle, era a bella rapaziada ! Porque lá isso de soirécs, bailes, — historias ! No fim, para que se estava n'este mundo P 'ra gosar, ter amigos alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas mulherzinhas de vez em quando. E para isso, não havia como Lisboa !
— O amigo verá ! exclamou, batendo no hombro d'Arthurq
Parecia gymplthisar com elle ; ao café, propozlhe mesmo que deixassem as excel!encias ; o melhor era você cá, você lá, e liberdadezinha . • • Elle gostava de liberdade. •
— Como todo o homem intelligente e que tem o espirito moderno disse Arthur, que procurava com insistencia elevar o tom do dia,logo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.