Por Eça de Queirós (1900)
Nenhuma notícia chegou à Torre: - e o Fidalgo passou a lenta quinta-feira à janela, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o moço do telégrafo, um rapaz gordo que ele conhecia pelo boné de oleado e pela perna manca. A noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou um moço a Vila-Clara. Talvez o telegrama arrastasse, esquecido, pela mesa daquela "besta do Nunes do Telégrafo"! Não havia telegrama para o Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa dificuldades! E toda a noite, sem sossego, numa indignação que rolava e crescia, imaginou o Cavaleiro cedendo molemente a outras exigências do Ministro - aceitando com servilismo para Vila-Clara a candidatura de algum imbecil da Arcada, de algum chulo escrevinhador do Partido!
Pela manhã injuriou o Bento, por lhe trazer tão tarde os jornais e o chá.
- E não há telegrama, nem carta?
- Não há nada.
Bem, fora traído! Pois nunca, nunca, aquele infame Cavaleiro transporia a porta dos Cunhais! De resto, que lhe importava a burlesca Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam outros meios de provar soberbamente o seu valor - e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. Bento! Que miséria, na verdade, curvar o seu espírito e o seu nome ao rasteiro serviço do S. Fulgêncio, o obeso e horrendo careca! E resolveu logo regressar aos cimos puros da Arte, ocupar altivamente todo o dia no nobre e elegante trabalho da sua Novela.
Depois do almoço ainda abancou, com esforço, remexeu nervosamente as tiras de papel. E de repente agarrou o chapéu, abalou para Vila-Clara, para o telégrafo. O Nunes não recebera nada para S. Exa.! - Correu, coberto de suor e pó, à Administração do Concelho. O Sr. Administrador partira para Oliveira!... Positivamente vencera outra combinação - eis a sua confiança burlada! E recolheu à Torre, decidido a tomar um desforço tremendo do Cavaleiro por tanta injúria amontoada sobre o seu nome, sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada sexta-feira a consumiu amargamente meditando esta vingança, que queria bem pública e bem sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do infame com chicotadas, na escadaria da Sé, um domingo, à saída da missa! Ao escurecer, depois dó jantar que mal debicara, naquele despeito e humilhação que o pungiam, envergou o casaco para voltar a Vila-Clara. Não entraria no Telégrafo - já com vergonha do Nunes. Mas gastaria a noite na Assembléia, jogando o bilhar, tomando um alegre chá, lendo risonhamente os Jornais Regeneradores, para que todos recordassem a sua indiferença - se por acaso, mais tarde, conhecessem a trama em que resvalara.
Desceu ao pátio, onde as árvores adensavam a sombra do crepúsculo carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando esbarrou com um rapaz que se esbaforia sobre a perna manca e gritava: - "É um telegrama!" Com que voracidade lho arrancou das mãos! Correu à cozinha, ralhou desabridamente à Rosa pela falta da luz tardia! E, com um fósforo a arder nos dedos, devorou, num lampejo, as linhas benditas: - "Ministro aceita, tudo arranjado O resto era o Cavaleiro lembrando que no domingo o esperava em Corinde, às onze, para almoçarem e conversarem...
Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao moço do telégrafo - galgou as escadas. Na livraria, à claridade mais segura do candeeiro, releu o telegrama delicioso. Ministro aceita, tudo arranjado!... Na sua transbordante gratidão pelo Cavaleiro, ideou logo um jantar soberbo, oferecido nos Cunhais pelo Barrolo, cimentando para sempre a reconciliação das duas Casas. E recomendaria a Gracinha que, para mais honrar a doce festa, se decotasse, pusesse o seu colar magnífico de brilhantes, a derradeira jóia histórica dos Ramires.
Aquele André! que flor, que rapaz!
O relógio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E só então Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que ele, embebido na sua glória, passeando pela livraria num luminoso rolo de imaginações, não sentira o rumor sobre a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos limoeiros.
Para se calmar, ocupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na Novela. E realmente agora convinha que terminasse essa Torre de D. Ramires antes do afã da Eleição - para que em janeiro, ao abrir das Cortes, surgisse na Política com o seu velho nome aureolado pela Erudição e pela Arte. Envergou o roupão de flanela. E à banca, com o costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o começo do Capitulo II- que o não contentava.
Era no castelo de Santa Irenéia, naquele dia de agosto em que Lourenço Ramires caíra no vale de Canta-Pedra, malferido e cativo do Bastardo de Baião. Pelo Almocadém dos peões, que, com o braço varado por uma chuçada, voltara em desesperada carreira ao Castelo, já Tructesindo Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide. - E neste lance o tio Duarte, no seu poemeto do BARDO, com um lirismo mole, mostrava o enorme Rico-homem gemendo derramadamente através da sala de armas, na saudade desse filho, flor dos Cavaleiros de RibaCavado, derrubado, amarrado numas andas, à mercê da gente de Baião...
Lágrimas irrepresas lhe rebentam, Arfa o arnês c'o soluçar ardente!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.