Por Camilo Castelo Branco (1862)
Bate do estro a negra asa.
O que primeiro lhe acode
Não é o ardente dizer,
Que pintá-lo melhor pode;
Primeiro, cumpre saber
Se há-de ser canção ou ode.
Vai, depois, pondo em fileira
As regrinhas desasadas;
Arrepela a cabeleira,
Rói as unhas mal lavadas,
E, por fim, rebenta asneira.
Borra a pintura que fez,
E versos novos maquina;
Recorda doutros que, há um mês,
Mandara a certa menina,
Que, com ele, amava três.
Nova edição incorreta
Da cataplasma daninha
Impinge o vesgo poeta
À analfabeta vizinha
Que engole os versos e a peta.
Engole, digo, pois quando
Ela, com custo, os soletra,
Parece está-los mascando;
E admira não ver setra
Com dois corações sangrando!
Repete os versos à amiga
Que diz nunca os vira iguais;
Mas, não sabendo o que diga
Em resposta a mimos tais,
Manda-lhe velha cantiga.
Os diques da inspiração
Rompem-se alfim em torrentes
De frutos de maldição;
Não são trovas, são candentes
Jorros de aceso vulcão.
Já começa a dar gemidos
A imprensa pouco honesta
Com os versos nunca lidos,
Que leitor grave detesta
Porque os fins são já sabidos.
E não leva a bela a mal
Que o mundo diga que é ela
Quem figura no jornal,
Disfarçada em nívea estrela
Com promessas de imortal.
À inveja de certa amiga
Nem isto quer que se esconda.
E, soberba, se impertiga,
Vendo-se em letra redonda,
Do pai cruel inimiga.
Já o vate exímio abarca
Um pensamento profundo,
Vem-lhe à memória Petrarca,
Que deixou cá neste mundo
Laura zombando da parca;
E estoutra Laura, tão sua,
Quer fazê-la eterna em verso;
E, quando pensa que actua
Na admiração do universo,
Não o conhecem na rua.
Trinta cadernos apronta
De pavorosa escritura,
Tira prospectos por conta
De equívoca assinatura,
Que por um terço desconta.
Sai a lume, e em trevas morre,
Filho da asneira e do amor,
Livro que insónias socorre;
Mas quem risco amargo corre
É decerto o impressor.
Entretanto, a virgem meiga
Os versinhos, doce prenda,
Cada vez mais n’alma arreiga,
A tempo já que na tenda
Se embrulha nela manteiga.
Vive na fé, todavia,
Que do amante a loquaz fama,
Que até aos astros a envia,
Já seu talento proclama
Muito além da freguesia.
E, convicta disto assim,
Tendo-se em conta de eterna,
Julga ser mister ruim,
Coser ceroula paterna
Ou remendar o carpim.
Infeliz pai!, que aflições
Não tens tu de amargurar
Ao tirar dos gavetões
A peúga sem calcanhar
E a camisa sem botões!
Em velhice desditosa,
Dói-me ao ver-te submerso!
Enquanto a filha radiosa
Se fez imortal em verso,
Morres tu em chilra prosa.
Mas, ó patusca poesia,
És a varinha de condão,
És no deserto água fria,
És tábua de salvação,
És farol que à Pátria guia!
Sem ti, doce companheira,
Amiga, sócia fiel,
A fábrica da Abelheira
Não venderia o papel,
Nem teria prémio a asneira,
Nem seria a mulher rola,
Nem celeste o seu sorriso,
Talvez fosse menos tola,
E tivesse mais juízo;
Mas isso de que consola?
Aí têm as futilidades com que, a grandes intervalos de tempo, se saía aquele espírito, que também sorteado entrara na república das letras! Vejam como se descompadecem a felicidade estúpida do marido de Tomásia e o engenho! Quão melhor lhe fora pedir ele à sociedade que lhe rasgasse de novo as cicatrizes e instilasse nelas o veneno que transpira depois em vociferações eloquentes na comédia, no poema e no romance! Ao menos, aquele brilhante astro, afogado no charco do estômago, irradiaria como tantos outros infelizes em volta da região intangível da felicidade, e o mundo, que o crucificara, seria depois o primeiro a apregoá-lo grande.
Saí de Soutelo no fim do Verão.
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.