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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- Sua prima não está em casa... Está em Paris

- Como? em Paris!... Onde está Mafalda?!

- Na hospedaria esperando que vamos. Não se demore.

Afonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:

- Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu for de rolo, ó Sr..92 Afonso.

A ansiedade do moço confundia as perguntas aceleradas de modo que o padre, no trânsito do fiacre ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que três pitadas com o sorvo cromático do seu costume.

Direitamente deve ser Afonso quem nos descreva o encontro:

"Entrei numa sala, a tempo que minha prima saia de uma câmara contígua. Caminhámos um para o outro, lavados ambos em lágrimas. Ela fitou-me com um gesto de assombro e disse:

"Tens cabelos brancos, Afonso!... E és da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga...

"E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-te a inocência da tua santa vida!"

"Vida de muitas dores, Afonso...", atalhou ela. "Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pai..." E encostou-se ao meu ombro, soluçando.

"Padre Joaquim acercou-se de nós limpando os olhos e disse:""É chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para alivio, e não para maiores penas. Basta, por agora, menina. Faltou-lhe o amparo de seu pai; mas o de Deus é que a ninguém faltou... A Srª D. Mafalda está aqui para se entender dom seu primo sobre um passo muito do agrado do Altíssimo: mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a opor-me, porque..."

"Mafalda fez-lhe um sinal de silêncio com implorante suavidade e, voltando-se para mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forçada compostura do rosto:

"Meu primo, a vida para mim não promete contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pai, e resolvi logo entrar num convento: mas a inactividade dos conventos pode ser que piorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma grande família de mulheres devotadas ao remédio dos infelizes, por amor de Deus. São as Irmãs da Caridade. Resolvi entrar nesse instituto; meus pais abençoarão este modesto desejo de ser útil a alguém, empregando os anos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Afonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que aceites as três quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na intenção de tas restituir foi que ele as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças à vontade de meu pai. Aceita o que teu era, meu querido Afonso, meu bom irmão; aceita, que é meu pai e tua mãe que to pedem, e eu também, com as mãos erguidas."

"Mafalda cessou de falar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante dela, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ela, abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos afectuosos abraços dos dez anos:

"Tu fazes a vontade à tua Mafalda, não fazes, Afonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação que me dás?

"Pode!", exclamou o padre Joaquim. "Pode, que o Sr. Afonso não há-de desobedecer à vontade de seu tio! Vamos!, a fidalga ainda não deu o abraço que o Sr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã."

"Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus lábios.

(continua...)

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