Por Coelho Neto (1890)
Ele não respondeu — seguiu muito firme, indignado com o procedimento daquela mulher que fora, a bem dizer, a causa da sua infelicidade. No corredor, ouviu a voz roufenha do Neiva e as gargalhadas do Lins que ceavam no jardim, ao ar livre. Retrocedeu, não estava disposto para a troça, sentia-se acabrunhado, queria o isolamento, o silêncio, a noite larga e muda. Saiu. Soprava uma viração suavíssima, mas era grande o tumulto de gente e de veículos. Luziam lanternas, um grande burburinho atroava a praça, as luzes dos botequins e das brasseries assoalhavam as calçadas.
Um homem passou por ele cantando; longe trilavam apitos e, à porta do Coblenz, um rapazola embriagado, com o chapéu à nuca, a bengala erguida ameaçadoramente, cambaleava.
Anselmo sentia-se fatigado, mas não tinha ânimo de recolher-se à casa, lembrando-se do alemão. Que lhe havia de dizer de manhã quando ele lhe batesse à porta do quarto? E Carlota?
No largo de S. Francisco ouviu o relógio da torre bater uma hora. Deteve-se indeciso. Por fim, resoluto, encaminhou-se para o Ravot. Dormiria no hotel e, de manhã, escreveria ao alemão "deixando-lhe os móveis em pagamento, pedindo apenas que lhe mandasse, pelo portador, os livros e a mala de roupa".
Subindo a escada do hotel lembrou-se do oferecimento do Pedroso. Iria morar com ele até arranjar alguma coisa... O criado levou-o por um longo corredor escuro. Num quarto aberto uma mulher, em camisa, estirada na cama, com uma perna nua pendente, fumava voltada para a porta; e havia gargalhadas, vultos brancos passavam ao fundo.
Quando o criado mostrou-lhe o quarto, entrou, despiu-se e, diante da cama estreita, à luz minguada da vela, que ardia tristemente, interrogou-se de novo: "Mas que havia de fazer?" e, de um jato, acudiu-lhe ao espírito o plano da sua grande obra: uma série de romances nacionais que começasse no descobrimento do Brasil e terminasse... faltava-lhe o grande final, a luminosa apoteose.
Via a terra virgem, as galeras, a grande cruz da primeira missa, a gente selvagem e a maruja belicosa da Lusitânia. Via o explorador varejando os sertões, via as missões, depois as bandeiras ávidas e as guerras de disputa ensangüentando a Pátria; os picões de Holanda e da França e as naves portuguesas, as igaras tamoias, o tráfico africano; depois as cidades suplantando as florestas, o ouro e os diamantes atraindo aos sertões o mundo ambicioso e os primeiros mártires e a primeira corte. Depois os heróis da independência e o primeiro imperador e o segundo e os dias modernos... Mas como acabar? Onde o grande episódio...?
Acendeu um cigarro, deitou-se e, soprando a vela, ficou ainda tempo pensando no último volume dessa grande série sem, entretanto, achar o final que a pudesse encerrar com uma apoteose magnífica.
CAPÍTULO XI
Três dias depois, realizando o que havia imaginado, Anselmo instalava-se em casa de Pedroso. O professor recebeu-o com alegria e, como ele levava apenas a canastra e alguns livros, tendo deixado o mais com o alemão, não houve necessidade de modificar a disposição móveis, que eram poucos. Viviam na pequena casa, além de Pedroso, o macambúzio Alfredo que, sendo irmão do professor, parecia-se tanto com ele como com o terceiro, um hóspede, o Raul, rapaz de vinte anos, que era uma montanha de carne. Com uma decidida vocação para o teatro estreara, aos dezoito anos, na Fênix Dramática, com o Galvão, fazendo pequenos papéis com discrição e suor à ufa.
Lembrava-se, com orgulho, de um "salteador" que interpretara com tanto talento que o empresário, depois da primeira récita, para animá-lo, disse:
— Raul, não fosse a tua corpulência e irias longe no teatro, mas assim, filho, com tanta enxúndia, cansas depressa.
Efetivamente cansou; ou antes: desanimou. A gordura caminhava com tamanha pressa pandeando-lhe o ventre, enchendo-lhe as coxas e os braços que, se uma peça lograva fazer carreira, à vigésima representação Raul era forçado a recorrer ao alfaiate para que lhe alargasse as roupas. Retirado do teatro, com o qual o toucinho o incompatibilizara, vivia melancolicamente, engordando e recitando monólogos pela casa, quando não ia para a cozinha aguar o ensopado ou salgar a sopa.
Mas a alma era grande e, não raro, rebentava-lhe dos olhos em ternura lacrimosa ou expluia-lhe do peito largo em suspiros estéticos sobre algum papel tonitruante de tirano, em peça truculenta. Sentia-se-lhe na melancolia do olhar a nuvem de um pensamento triste que se poderia traduzir livremente nesta lamentação: "Que grande artista se perde neste jacá de toucinho..." Em verdade, era um jacá e atochado.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.