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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Mais singular mc parece, — retorquio Carlos um pouco restabelecido de sua primeira sorpreza e emoção, vir encontrar em sua casa esta senhora já não na condição, em que a conheci, mas na qualidade de sua filha. Perdoeme si lhe fallo com esta lizura; mas é um mysterio, que me assombra, e que desejava ver decifrado. Até mesmo ainda me quer parecer que é isto um gracejo de sua parte.

— Um gracejo! — replicou Conrado formalisando-se um pouco. —A que proposito viria semelhante gracejo?... mas eu lhe desculpo; o senhor tem alguma razão para assiln pensar, principalmente sabendo já dos precedentes de Rozaura, o que eu estava bem longe de imaginar. Ha mesmo ahi um mystcrio, que eu devo e desejo lhe communicar. Promette vir jantar amanhã comnosco? — Com muito prazer.

Pois bem; venha cedo, e prometto-lhe que amanhã mesmo ficará sciente da historia de Rozaura, e se dissiparão todas as suas duvidas e incredulidades.

Conversáráo ainda por algum tempo, mas nem Carlos nem Rozaura no assombro e enlevo, em que se achavüo, sabião bem o que dizião. Tambem de sua parte Conrado se achava bastantemente apprehensivo; o facto de já serem os dous jovens conhecidos um do outro fizera-lhe impressão no animo, e não lhe tinha escapado o enleio e perturbação, com que se encaravão. Por mais que se esforçasse por dissimular sua preoccupação, não podia deixar de mostrar-se pensativo e distrahido. Em vista daquelle estado de embaraço e constrangimento, em que todos se achavão, Carlos comprehendeo que não convinha prolongar por mais tempo sua visita, e sem se lembrar mais de mezada, nem de dinheiro para a viagem, levantou-se, tomou o chapéo, e já ia despedir-se.

— Então não quer receber a sua mezada — perguntou Conrado.

—'Ah! é verdade! ia me esquecendo.

Conrado sorrio-se de um modo que fez corar o estudante, e levando-o para o seu gabinete contou-lhe o dinheiro não só da mezada, como tambem do que elle exigio para a viagem. Carlos porém ao retirar-se da casa do seu corres- pondente, tinha tanta vontade de ir a ferias, como de atirar—se nas profundas e sombrias aguas do Tieté com uma pedra ao pescoço.

CAPITULO XXIII.

Vinte e quatro horas de anciosa expectativa.

Conrado, como dissemos, ficára seriamente impressionado ao saber que Carlos e Rozaura ja se conhecião. Isto para um homem experiente e perspicaz como era elle, e á vista dos symptomas que rapidamente obsel'vára naquelle primeiro encontro, queria dizer que os dois jovens já se amavão. Por alguns momentos uma vaga e sombria desconfiança lhe adejou pela mente, lembrando-se da humilde e desgraçada condição, em que até então tinha vivido sua filha. Mas essa nuvem para logo se dissipava toda a vez que contemplava a physionomia de Rozaura, em que se espelhavão a candura e a innocencia de sua alma. Tambem conhecia a Carlos como um moço de sentimentos nobres e delicados, e o modo per que ambos se houverão naquelle encontro inopV nado, bem estava revelando que se havia alli paixão, era de uma e outra parte uma paixão virginal e pura, um sentimento honesto e recatado.

Havia apenas quinze dias que Rozaura se achava em casa de seu pae, e não diremos que se havia operado nella uma completa transformação, porque Rozaura era elegante, discreta e graciosa por natureza; mas tinha feito taes progressos no desenvolvimento desses seus dotes naturaes, que parecia ter sido nascida e educada no meio da mais polida sociedade. É verdade que ella durante sua escravidão fôra sempre tratada com mais algum mimo e delicadeza do que os outros escravos, mesmo por Nha—Tuca, sua primeira senhora; mas mesmo assim era para admirar como em sua brusca passagem da humilde condição de escrava e de sua vida simples e retrahida para os salões da opulencia sc familiarizasse tão depressa com a sua nova posição. Tambem a sua estada por espaço de um mez em casa de Adelaide, onde era tratada como parte da familia, contribuio para habitual-a ao trato de uma sociedade mais distincta, e servio como de transição ou sirocinio para que não entrasse por demais bisonha na opulenta e luxuosa casa de Conrado.

(continua...)

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