Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Nestas histórias sempre aparece belo e tentador o demônio com o nome ou com a alcunha de acaso.
Um dia Júlia, indo ver uma de suas amigas, por acaso achou-a cercada de escolhida e elegante companhia, e por acaso também fazia parte da companhia um mancebo fatalmente chamado
Artur.
Nestas histórias, também é de regra que apareça sempre um Artur, cujo nome, Artur, é outra já cansada alcunha romanesco-sedutora que o diabo costuma tomar.
Artur aos trinta anos de idade estava no maior viço da beleza varonil, era de alta estatura, muito bem-feito, e vestia-se com o melhor gosto.
Ou seduzido pela beleza de Júlia, ou simulando-se nessa lisonjeadora situação, Artur imediatamente enamorou-se da jovem esposa do caçador ausente, ou antes namorou-a, e fezlhe a mais doce corte, zelando todavia respeitosa circunspeção, que ainda mais o recomendou.
Júlia mostrou-se tão sábia quanto pode sê-lo uma jovem desvanecida de seus encantos; não animou de modo algum a corte que lhe era feita, mas fingia não percebê-la para não ser obrigada a repulsá-la.
De volta a sua casa, e ao destoucar-se diante do espelho Júlia lembrou-se de Artur; no dia seguinte porém deixou de lembrá-lo, recebendo Frederico depois de oito dias de ausência.
Correu feliz um mês para a amorosa esposa, que aliás de todo indiferente viu por vezes Artur a admirá-la no teatro, no baile, ou em encontros casuais.
Mas passado o ditoso mês, Frederico partiu para a caça; Júlia foi distrair-se da solidão, visitando as amigas...
E Artur no caso!...
Resuma-se a história.
No fim de um ano tanto caçara pacas e veados o marido Nemrod e tanto se estremara sorrateiramente o hábil e artificioso Artur, que Júlia, jovem, sensível, vaidosa e sonhadora de ilusões na ociosidade apenas se mantinha recatada pela sua nobre virtude.
Mas no íntimo do coração a esposa do caçador incorrigível sentia-se docemente agradecida às finezas e ao amor do belo Artur.
Se Júlia não escondesse e abafasse tão cuidadosa essa espécie de gratidão, seria tal sentimento um começo pelo menos de amor platônico.
E o amor platônico é ainda outra alcunha que o diabo toma, quando quer empurrar para o abismo alguma triste vítima.
Infelizmente a tal espécie de gratidão por mais que se dissimule, sempre se atraiçoa, é uma espécie de violeta, cujo perfume a denuncia.
Eu não sei, nem talvez Júlia soube, como Artur descobriu o segredo daquele sentimento, mas descobri-lo e apertar o cerco da fortaleza foi o que ativamente fez o já esperançado conquistador.
Esforço baldado! Frederico caçava, mas o baluarte não se rendia.
Artur ousou escrever a Júlia; esta, porém, negou-se a receber a carta; em oportunos ensejos de reuniões em que se encontraram, Artur tentou por vezes levar, atrair, arrastar Júlia à conveniente conversação que lhe facilitasse já desnecessárias, mas insidiosas, declarações de seu amor, e a jovem senhora casada sempre achou ótimos pretextos para cortar-lhe a palavra, ou distanciando-se do tentador, ou falando-lhe do sol e da chuva.
Mas Júlia não pensava que assim cumpria apenas metade do seu dever, e que continuando por vaidade e por aquela espécie de gratidão a tolerar nas sociedades a aproximação, a palavra e a corte embora decente do mancebo que evidentemente se mostrava seu apaixonado, quase que o autorizava a apertar o cerco da fortaleza.
Porque em matéria de cumprimento de dever - ou tudo ou nada. - o dever não tem metades, é, ou não é, cumpre-se todo e à risca, ou incompleto deixa de ser cumprido.
E conseqüência lógica daquela aberração do dever, cujo cumprimento ficará em metade e, portanto, moralmente nulo, eu ainda não sei como foi e creio e devo crer que Júlia também não o soube, deu-se o caso do singular desfecho deste romance.
Artur queria a todo transe um momento, alguns minutos, uma hora em que a sós com Júlia pudesse ajoelhar-se a seus pés e beijar-lhe, uma vez ao menos, as mãos pequeninas e lindíssimas.
Perdera tempo e eloqüência, tentando dirigir-se diretamente à jovem senhora.
Mudou de plano, e apelou para ataque de surpresa.
Eu digo de surpresa, porque seria capaz de jurar que Júlia foi estranha ao trama condenável e comprometedor de sua virtude.
Artur informou-se de quem era a modista de Júlia na Rua do Ouvidor, e de bolsa aberta e convencendo a modista de conivência que não havia, preparou cilada perversa e infernal.
A modista mandou anunciar a Júlia que acabava de receber de Paris delirantes toilettes de fantasia, e que a esperava no dia seguinte para dar-lhe a primazia na escolha dos mais eclipsadores.
É claro e evidente que então andava Frederico, o Nemrod, ausente em caçada.
Júlia não faltou, era impossível que faltasse ao emprazamento da sua modista, e esta notou ou fingiu notar que a jovem senhora entrava comovida e hesitante em sua loja..
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.