Por Eça de Queirós (1925)
— Quero-lhe apresentar o sur. Arthur Corvello, um poeta ; o snr. Saavedra, o nosso director.
Saavedra apertou, protectoramente, a mão que Arthur lhe estendeu com servilismo —e pondo o chapéu mais ao lado :
— Ah, esquecia-me. O João Carolino, do Ministerio do Reino, deu-me um folhetim para úmanhã... Manda p'ra dentro, elle vem revêr as provas,
antes d'atirar o manuscripto sobre a mesa, abriu, leu alto :
« Á BEIRA-MAR. —Sentado n'uma penedia, deixo
«o pensamento vogar sobre a superficie liquida, « onde os dourados raios do sol poente espargem mil cambiantes de luz. E com a alma arrebatada, « contemplo a pasmosa maravilha da, ereaqão. Oh ! materialistas, escondei o rosto na vergonha de « vossa perversa blasphemia ! Vinde a este penedo, « se quereis ter a certeza da existencia de Deus. « Vinde a este penedo, gigante de granito Está opulento — murmurou.
Atirou o manuscripto a Esteves, abaixou a eabeca a Arthur e sahiu trauteando.
Melchior ergueu-se logo e com um sorriso :
— Estou ás suas ordens, Snr. Corvello ! Oh, Esteves, aqui te deixo as noticias, hein ! —E de pé, ia-lhe passando pequenas tiras de papel, de que lia as primeiras linhas, n'uma verificação rapida : — Foi despachado alumno pensionista, etc Foi approvada a tarifa especial) etc Parece que o snr. Vieira não acceita a nomeação, etc. . . . O conheeido Mesquita faz leilão da sua casa de penhoe res, etc . . FOI acceite pela Camara Municipal de Villa Nova de Famalicão a proposta do marchante Augusto, etc. . . . Ilouve hontem uma desordem no becco do Monete, etc » Ahi tens as duas anecdotas que vinham no jornal hespanhol. A chegada do Meirinho. o que ha. Não vem mau o numero d'ámanhã
Foi interrornpido por nós de dedos que batiam á porta, e, quasi immediatamente, dous homens entraram. Pareciam operarios : um d'elles, atarracado, tinha uma face honesta que attrahia, mas foi o outro, franzino e amarello, quem tomou a palavra. Um pouco embaraçado, puxando os pellos do bigodito e batendo com o chapéu na coxa, devagarinho, começou, enchendo a voz :
— Nós gomos filhos do trabalho — Hesitou, procurando, na presença dos jornalistas, embellezar as suas phrases : — Somos da fabrica de fiação da Pampulha, e, como V. Ex. a sabe, estamos em grê- ce . . . A commissão entendeu que deveria publicar um communicado, para dar coragem, para levantar os animos . . . — Pareceu consultar o companheiro, accrescentou, córando : — Ainda que haja alguma despeza . . . Que as circumstancias — estendia o manuscripto.
Melchior e Esteves entreolharam-se :
Não, — disse Melchior — não é nada ; os senhores estão em greve e o Secado está na opposi Sae ámanhã, podem ir descangados.
—A justiça é por nós — balbuciou o rapaz.
Pareceu querer collocar uma phrase final, hesitou, fez um Signal ao companheiro, e sahiram ambos devagar, gingando levemente.
Esteves abrira o communicado e parecia surprehendido. Melchior então, curioso, foi olhar por cima do hombro d'elle, e leu alto :
« IRMÃOS DO TRABALHO ! Quando do alto do Golgotha, o Redemptor do genero humano, já « exangue, soltou o grito supremo, foi para procla-
« mar uma aurora de paz e d'esperança e arrancar «a cadeia da escravid.ão dos pulsos dos filhos da democracia . . . » E continuava assim, em duas laudas, fallando da gargalheira de ferro dos tyrannos do credo da Ij.berdade da « arca da alliança Explicava a greve da Pampulha, como sendo a « aurora que raia para as victimas do despotismo » ; aconselhava os operarios « a que refrigerassem as frontes fatigadas no puro seio das filhas do povo» ; e depois de novas amplificações sobre o Christo, terminava: « a vossa commissão grita-vos do alto da collina : coragem, heroes do trabalho, coragem ! »
— Hem '. fez o Melchior, attonito. — P 'ra ser d'um operario ! Está esplendido ! Manda-o pôr na segunda pagina, caramba !
Tambem Arthur estava surprehendido. Que cidade, Lisboa, em que dos empregados aos tecelões, todos tinham a preoccupagão da eloquencia e a fé na publicidade ! Não se conteve, soltou a sua phrase :
— Lisboa é a estagSo central da intelligencia Mas o rapazito de blusa entrou vivamente na redacção :
— Está alli outra vez o homem do hotel com a conta !
Melchior atirou-se com um salto para a saleta interior e pela porta entreaberta, com grandes gestos, a voz abafada :
— Que não estou, que fui para o campo !
Ouviu-se fóra um vozeirão irritado e o rapazito esoaniçando-se replicar, quisilado ; depois, houve um silencio, e Melchior, com cautela, mostrou a face inquieta :
— Foi-se
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.