Por Eça de Queirós (1900)
E eis a fenda transposta, a áspera fenda, sem rasgão no seu orgulho ou na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo gabinete, desde a estante carregada de papéis até a varanda - que André abrira, por causa dum cheiro persistente de petróleo entornado na véspera. André tencionava partir nessa noite para Lisboa - para conferenciar com o Governo, depois daquela inesperada desaparição do Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como único Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial pelo nome, pelo talento, pela influência, pela lealdade. E eis a eleição consumada! De resto (declarara o Cavaleiro, rindo) aquele Circulo de Vila-Clara constituía uma propriedade sua - tão sua como Corinde. Livremente, poderia eleger o servente da Repartição que era gago e bêbedo. Prestava pois um serviço esplêndido ao Governo. à Nação, apresentando um moço de tão alta origem e de tão tina inteligência... Depois acrescentara:
- Não tens a pensar mais na eleição. Vais para a Torre. Não contas a ninguém, a não ser aoGouveia. Esperas lá, muito quietinho, telegrama meu de Lisboa. E, recebido ele, estás Deputado por Vila-Clara, anuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens almoçar comigo a Corinde, às onze.
Então ambos se apertaram num abraço que fundiu de novo, e para sempre, as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o acompanhara, André, repenetrando timidamente no Passado. murmurou com um riso pensativo: - "Que tens tu feito ultimamente, nessa querida Torre?" E, ao saber da Novela para os Anais, suspirou com saudade dos tempos de Imaginação e de Arte em Coimbra, quando ele amorosamente lapidava o primeiro canto dum poema heróico, o Fronteiro de Ceuta. Enfim outro abraço - e ali voltava Deputado por Vila-Clara.
Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche, era ele que os representava em Cortes, ele, Gonçalo Mendes Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus! Porque já as idéias o invadiam, viçosas e férteis. Na Vendinha, enquanto esperava que lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de sável, meditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um esboço sombrio e áspero da nossa Administração na África. E lançaria então um brado à Nação, que a despertasse, lhe arrastasse as energias para essa África portentosa, onde cumpria, como glória suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal maior!... A noite cerrara, ainda outras idéias o revolviam, vastas e vagas quando o trote esfalfado da parelha estacou no portão da Torre.
Ao outro dia (terça-feira) às dez horas, o Bento entrou no quarto do Fidalgo com um telegrama, que chegara à Vila de madrugada. Gonçalo pensou com um deslumbrado pulo do coração: - '~É do Governo!" - Era do Pinheiro, gritando pela Novela. Gonçalo amarrotou o telegrama. A Novela! Como poderia labutar na Novela, agora, todo na impaciência e no esforço da sua Eleição?... Nem almoçou sossegadamente - retendo, através dos pratos que arredava, um desejo desesperado de "contar ao Bento". E, sorvido o café num sorvo impaciente, atirou para VilaClara, a desafogar com o Gouveia. O pobre Administrador jazia de novo no canapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a tarde na estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou os talentos do André, "homem de governo e de idéias, Gouveia!" - celebrou o Ministério Histórico, o único capaz de salvar esta choldra, Gouveia!" - desenrolou vistosos Projetos de Lei que meditava sobre a África, "a nossa esperança magnífica, Gouveia!"
- Enquanto o Gouveia, estirado, só rompia a mudez e a imobilidade para murmurar chochamente, apalpando o calor das papas:
- E a quem deve você tudo isso, Gonçalinho? Cá ao meco!
- Na quarta-feira, ao acordar, tarde, o seu pensamento saltou logo sofregamente para o AndréCavaleiro, que a essa hora, em Lisboa, almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz, André se conservara fiel ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente através do silêncio da casa e da quinta, seguiu o Cavaleiro nos seus giros de chefe de Distrito, pela Baixa, pela Arcada, pelos Ministérios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da Justiça. Outro convidado certamente seria o José Ernesto, Ministro do Reino, condiscípulo do Cavaleiro, seu confidente político... Nessa noite, pois, tudo se decidia!
- Amanhã, pelas dez horas, tenho cá telegrama do André.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.