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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acordava por instantes, ouvia-me com aspecto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e motejador de quem se bandeia com os mofadores das letras. Aqui se me depara agora um poesia, que ele, em hora bem-humorada, tirou desta mesma pasta para me ler. Quando a releio e aquilato a tendência satírica de Silvestre, mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. Aqui tem o leitor os versos:

Da oca ostentação as vãs negaças,

E os tantos seus ridículos tamanhos,

Fazem chorar e rir.

Ó eras primitivas dos rebanhos,

Ó tempos patriarcais

Deixai que possa esta alma reflorir!

A filha de Labão enchia a bilha;

Penélope, a rainha, ensaboava

Os carpins conjugais.

Lucrécia com a roca sirandava,

E muito grandes damas

Faziam tudo aquilo, e muito mais.

E era um gosto ver como elas tinham

As casas petrechadas, trastejadas,

Mourejadas, varridas!

Curavam por mãos suas as meadas,

Teciam suas teias

E tinham sempre as arcas bem fornidas.

Ao domingo, depois de ouvirem missa,

Cuidavam do jantar à portuguesa,

Farta sopa e cozido.

Depois, para ajudar a natureza,

Vão dar um passeio

Desintourindo o bucho entumecido.

Ao lusco-fusco, as portas se trancavam,

E marido e mulher, numa só alma,

E numa cama só,

Ressonavam em doce e mansa calma;

Sonhavam sonhos d’ouro,

E amor os estreitava em mago nó.

Ó tempos patriarcais!... Com que saudade

Eu, filho destas eras pataratas,

Invejo os meus avós!

Vivíeis pendurados dos rabichos,

Virtudes portuguesas!

O rabicho caiu, caístes vós.

E agora... ai!, que desmancho, que toleimas,

Que gente, que nação e que costumes

Os teus, ó Portugal!

Se há civilização, é só nos lumes,

Nos lumes-prontos só;

E, se teimam que há luz, é infernal!

Vão ver o que se passa em cada casa,

Que vive à lei de gótica nobreza,

E seus festins nos dá!

Se é jantar, o talher que vem à mesa,

O usuário o dera

Em troca do serviço que é do chá.

Se é baile, vai em troca do serviço

A inútil baixela do jantar;

E assim se faz figura;

E, se é jantar e chá, vão-se alugar

Ao sórdido judeu

Ambas as coisas, que absorve a usura.

As famílias do tom mais miserandas

Aquelas são que têm sege em cachoeira

E seu guarda-portão;

Que dos riscos de giz do merceeiro

Deduz-se que a barriga

É imolada às glórias do brasão.

São moda agora uns fofos vaporentos

Omelettes souflés denominados,

E omelettes sucrées;

Emblema são do tempo estes bocados,

De todo o ponto avessos

Ao estômago sincero português!

Pondera alguém que as raças se depuram

Ao passo que a tintura vermelhaça

Dos semblantes se some;

Dizem que a palidez extrema a raça;

Mas eu de mim não creio

Que seja perfeição: acho que é fome.

Em caução da minha crítica, declaro que me afasto dos admiradores de Silvestre, se alguns ele tem, como poeta. A genuína poesia não é aquilo, nem o foi nunca. O poeta puro-sangue levanta-se sobre o lodo da vida real e senhoreia-se dos milhares de mundos que Deus criou para os génios e os génios tomaram das mãos de Deus para cantá-los. Poeta que canta a sopa e o cozido falseia a sua vocação de medíocre cozinheiro. Assim é que eu, zeloso sacerdote da arte, entendo a poesia, e nem aos mortos indulto. Antes quisera ter de o criticar somente por umas bagatelas métricas com que Silvestre da Silva algumas vezes rastreou Nicolau Tolentino. A mordacidade distancia-se da poesia quanto as sátiras de Boileau discriminam das contemplações de Vitor Hugo. Aqui se traslada, ainda assim, o género em que prelevou Silvestre, à competência com Faustino Xavier de Novais, ambos, para assim dizer, feridos do mesmo dente da musa mordente:

E, com pesar de o ter sido,

Resolvi fazer-me bom;

E ao mundo que hei ofendido,

Em paga, faço-lhe um dom.

Dos meus colegas, é certo,

Que os artifícios traidores

Hei-de mostrar bem de perto.

Quero pôr a descoberto

Seus planos sedutores.

Quando a vítima incauta

(Quero dizer a donzela),

Chilreando em tom de flauta,

Lança à noite da janela

Cartinha escrita por pauta:

O poetastro entra em casa,

Devora, sôfrego, a empada,

E, se não é maré vaza

De inspiração desgrenhada,

(continua...)

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