Por Camilo Castelo Branco (1864)
Em Lisboa era sabida a situação de Afonso de Teive, não que ele a contasse.
Escrevia ao tio Fernão raramente, sem de leve tocar em negócios. Respondia às cartas. de algum raro amigo que o julgava ainda em circunstâncias de lhe não pedir empréstimo para se resgatar de Clichy.
Neste tempo recebeu ele novas de Palmira, não solicitadas. Dava-lhas assim um dos seus comensais de Lisboa:
[...] A mulher surgiu aqui, vinda não sei de onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou. melhor direi, no teu reinado.
Vi-a em São Carlos, ontem, sozinha na frisa. Disseram-me, porém, que lá, no recôncavo do camarote, estava um homem gordo, de tez bronzeada e vista de suíno.
Dizem que é brasileiro do Minho, outros diziam que o marido envergonhado. O D. José de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhaço, e vai a tísico irremissivelmente. Não há memória de uma catástrofe assim nos fastos dos Lovelaces patifes deste nosso quintal do tio Lopes. O D. António de Mascarenhas assevera-me que Palmira nunca mais teve uma palavra de consolação para o derreadoamante, O teu criado matou estes amores com tamanha ignomínia, que já não há ninguém que queira amar mulher em casa onde haja cisterna.. - Irei dizendo o que souber da Laïs minhota [...].
Afonso leu glacialmente a carta e não respondeu ao noticiador. - Que sentimento fez em ti essa nova? - perguntei eu.
Afonso encolheu os ombros e disse:
- O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não há infâmia de alma que desça até aí. Odio também não, que o ódio quer vingança, e eu dava-me já por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abismos. Era piedade que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmira, dentro de um ano, perdera a formosura, que vendia, e os bens, que herdara, e se desgraçara até à extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dois quinhões, e um mandar-lho-ia sem insulto nem palavra recordadora do passado.
Esta foi a resposta de Afonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e
não há nada que não acredite.
XXIII
No escritório comercial onde o meu amigo trabalhava chegou, ao fim da tarde do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da Embaixada indagando a residência do português Afonso de Teive.
Saiu com o esclarecimento em demanda de outro português, que se apresentara ao ministro, com importantes recomendações de Lisboa. A nota da residência era Rua Vivienne, 104, 5º andar, lado esquerdo; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabelos brancos, trajado de sacerdote.
O leitor não se deixa surpreender mais tarde: já se sabe que a senhora é Mafalda e o sacerdote é o capelão padre Joaquim de S. Miguel.
Padre Joaquim entrou num fiacre com o guia posto à sua ordem pelo ministro português. Apearam ao portão do prédio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Saiu do interior da loja, residência do porteiro, o criado de Afonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, se lançou a ele de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.
- Ainda vives, Tranqueira? - exclamou o clérigo. - E sempre com o pequenito de Ruivães!?...
- Até à morte, Sr. Padre-Mestre!... Pois por aqui? V. Sª por estas terras?... Que é feito do Sr. Fernão? e da fidalguinha?
- Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar - atalhou o padre.
- Ponha-se aqui às minhas costas, que eu levo-o lá, Sr. Padre Joaquim! - disse o Tranqueira, ajeitando-se para ser cavalgado.
- Estás doido de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vocês cá no país da civilização já andam uns às cavaleiras dos outros?... Olha lá... - não avises teu amo. Quero ver se ele me conhece ainda.
Afonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive quando o padre entrou.
- Veja se se lembra, Sr. Afonso! - disse o capelão.
- Lembro! - clamou Afonso erguendo-se a abraçar o clérigo. -Vem de Fonte Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?
- Podemos ficar a sós? - perguntou o clérigo. O Tranqueira saiu, e o guia, esclarecido em francês por Afonso, retirou-se.
- Eu estava a escrever a meu tio Fernão... - disse Afonso.
- No outro mundo somente se recebem orações, e não catas -atalhou o padre.
- Morreu meu tio?! - exclamou o moço.
- Lã se foi com Deus aquele justo. Pouco antes de expirar deixou-lhe um abraço ao Sr. Afonso. A Srª D. Mafalda foi a depositária do abraço...
Afonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.
- Ele merecia-lhe essa saudade - continuou o padre -, que era muito amigo de V. Exª.
- Minha desgraçada prima! - exclamou Afonso -, que vida vai ser a dela naquela solidão, sem pai, sem uma alma que a estremeça!...
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.