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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Vou tomar banho. Estamos aqui, como Paris em 70: sitiados pela Alemanha. Sempre que vou ao banheiro o alemão agarra-me e pede-me, numa língua medonha, o mês da casa, porque estamos quase com o segundo vencido. Não estou para isso. Vou tomar o meu banho por ai, descansadamente, num banheiro magnífico.

— Onde?

— Por aí. Que diabo! O que não falta são casas vazias.

— Sim... E depois?!

— Como depois? Pois não percebes?! Levo daqui a toalha, o sabonete e o pente, peço a chave para ver a casa, tranco-me, corro ao banheiro, regalo-me, torno à venda, entrego a chave, tomo informações sobre o senhorio e aí está. Queres vir?

— Vou. Também não tenho coragem de falar ao alemão e coro diante de Carlota. Saíram.

A vida, porém, tornava-se cada vez mais apertada e difícil. Para não encontrarem o alemão, entravam tarde, pé ante pé, e saíam cedo. Ruy Vaz, por fim, extenuado, instalou-se no palacete do visconde de Montenegro, retirando, a pouco e pouco, os livros, os quadros flamengos, A Barricada e outros pequenos objetos. Anselmo, só, ia curtindo a fome.

Uma noite, muito enfraquecido, pôs-se a procurar nas estantes desfalcadas alguns livros que lhe pudessem dar qualquer coisa: só restavam romances e alguns poetas ingleses. Lembrou-se, então, da caixa de música... Se a empenhasse? Estava perfeita, podia dar dinheiro — tomou-lhe o peso, era grande, mas como tinha um níquel, podia levá-la no bonde até à rua Gonçalves Dias e dali, nos braços, à casa de penhores. Decidiu-se e, não ouvindo rumor na casa, estando a família à mesa, saiu, pé ante pé, com o precioso fardo e, alcançando a rua, apressou o passo receoso de que o vissem.

Na cidade correu imediatamente à travessa de S. Francisco, embarafustou por um dos compartimentos e, repousando a caixa de música, propôs o penhor por três meses. O homem, muito sisudo, fez um momo rosnando: Que aquilo não valia a pena.

— Está perfeita? — Pois não.

Ele pôs-se a examinar, deu corda. As molas perras rangeram, mas o cilindro girou e a ária da Jolie parfumeuse tilintou alegremente naquele canto mal alumiado.

No cubículo contíguo uma velha resmungava.

Anselmo teve uma grande emoção ouvindo aquela ária alegre que lhe recordava os doces tempos da vida tranqüila, no seio da família. As noites calmas, quando o velho pai, estirado no canapé, enquanto a mamãe cosia à luz do lampião de querosene e o gato resbunava pela sala, mandava vir a caixa de música e adormecia ouvindo as peças que se sucediam vivamente: Les Porcheron... Ainda...

Ó doce tempo!

O homem teve de perguntar duas vezes:

— Quanto quer?

O estudante, com os olhos úmidos, andava pelo passado, revendo a ventura para o sempre perdida.

— Quanto quer?

— Veja quanto me pode dar.

— Eu não costumo receber estas coisas... Enfim: vinte e cinco mil réis, serve?

Ele sentiu um sobressalto, mas emendou:

— Trinta.

— Não; mesmo ela precisa de uma limpeza em regra. Vinte e cinco. — Vá lá...

O homem encheu a cautela entregando-a a Anselmo com o dinheiro depois de lhe haver apresentado à assinatura um livro.

Saindo para a noite alegre, fresca e estrelada, procurou imediatamente um hotel e repastou-se, suando copiosamente, seguindo para o teatro saciado e feliz. Representava-se a mesma mágica em que Amélia aparecia, de fada. Foi vê-la à caixa e houve um longo idílio — ela muito queixosa, ele inventando explicações. Vendo o Heller pediu notícia de A Profecia. O empresário nem se lembrava da peça que tinha tal título e foi necessário insistir para que ele exclamasse:

— Ah! Sim. Há de ir... há de ir...

— A peça tem elementos, senhor Heller.

— Pois não: há de agradar, com uma boa música. Mas, de cabeça erguida, pôs-se a bradar: Olhem essas bambolinas!

Saindo, encontrou o Pedroso, seu antigo condiscípulo. Houve uma cena efusiva. O Pedroso arrastou-o para uma mesa, mandou vir cerveja e, bebendo, falaram dos destinos que haviam seguido. O Pedroso era professor, lecionava Português, Aritmética e Geografia. Estava em Catumbi com o irmão e um companheiro. Vivia bem, era feliz. Anselmo explicou os seus infortúnios e o outro, muito franco, ofereceu-lhe a casa, podia ficar com ele até achar colocação — era uma boemia, mas vivia-se. Anselmo encolheu os ombros. Ao fim do espetáculo, despedindo-se de Pedroso, foi para a Maison Moderne esperar Amélia. A atriz apareceu e Anselmo foi-lhe ao encontro.

— Vem cear comigo.

— Não posso.

— Por quê?

— Se me tivesses falado mais cedo...

— Com quem estás?

— Com uma besta que me persegue há mais de um mês. Queres amanhã?

— Não.

— Então quando?

— Nunca mais! Boa noite. — Estás zangado?

(continua...)

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