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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

— Ah! muito bem; hei de sentir muito a sua ausencia; mas não posso deixar de approvar a sua resolução em vista do estado de sua saúde. Faz bem; vá tomar ares em sua bella provincia, e volte-nos robusto, sadio, e alegre como d'antes.

— Não sei si voltarei, senhor Conrado, murmurou Carlos com desanimo.

— Oh! porque não? ha de voltar sem duvida. Quererá dar a seu pae o desgosto de ver interrompida sua carreira quasi no seu termo?... Ha de voltar, sim, meu amigo. Entretanto não quero que se vá embora, sem que fique sabendo de uma novidade que ha aqui em nossa casa... não é capaz de adivinhar qual é.

— Nem por sombra.

— Pois participo-lhe que sou pae ; não ha muitos dias nasceo-me uma filha, que desejo lhe apresentar.

— Uma filha! — exclamou Carlos com sorpresa. — Ora essa! o senhor está gracejando; não é casado, e demais...

— Ora que tem isso? — atalhou Conrado; — não quer acreditar? pois vou apresentarlh'a neste momento. Com licença...

Conrado retirou-se para o interior da casa.

Carlos, si tivesse o espirito menos preoccupado, e não trouxesse o corac,ão tão pejado de amarguras, ficando alli só teria passeado uma vista d'olhos em torno do salão, e teria notado nelle não pequena modificação no luxo e na disposição dos moveis. Teria notado nelles um arranjo mais caprichoso e elegante, almofadas collocadas nos sofás com o mais esme- rado aceio, flores frescas em todos os vasos, emfim em tudo certo ar garrido e festivo, que estava revelando que alli andava a mão de uma mulher, e mulher de fino e apurado gosto. Teria visto mais sobre um bufete de jacarandá negro um rico leque, um lenço de cambraia primorosamente bordado, e um mimoso ramalhete de violetas, objectos que seguramente não erão do uso de Conrado. O mancebo porém nada vio, nada observou, e durante a ausencia de Conrado, que durou poucos minutos, ficou a fazer mil conjecturas sobre o que lhe acabava de annunciar seu correspondente.

— Será gracejo? — pensava elle. — Mas que alcance, que explicação, que espirito póde ter semelhante gracejo em tal occasião, principalmente de um homem dotado de tanto senso e de tanta discreção como é o meu correspondente? l... O senhor Conrado, além de não ser casado, não me consta, que tenha amazia alguma nem em casa, nem fóra della, e passa por celibatario exemplar. É mesmo para admirar, que este homem, moço ainda, rico e elegante não tenha tido namoro, nem intrigas amorosas de especie alguma é cousa quasi impossivel... não ha duvida... a unica hypothese razoavel, que se apresenta ao espirito, é mesmo a de alguma filha natural fructo de algum amor mysterioso, que elle até aqui tem sabido esconder com cuidado aos olhos do mundo. Como me tem amizade e deposita em mim alguma confiança, vae agora fazer—me depositario do seu segredo.

Agora mesmo vae lhe ser apresentada a minha filha, senhor Carlos, disse Conrado tornando a apparecer no solão.

Carlos em pé e com os olhos na porta, por onde Conrado havia entrado, esperava a cada momento uma ama ou uma escrava trazendo nos braços bem enfaixada a creancinha, filha de seu correspondente. De feito, passados alguns instantes ouvio passadas e o leve rugir de um vestido pelo pavime ato.

Ei-la! . . . disse en :e si. — Mas quem assomou no limiar da porta?... a mais formosa donzella que se póde imaginar, de gentil e esbelto porte, tendo no rosto não mui alvo todas as graças do pudor virginal e da ingenuidade infantil.

Vinha vestida de branco com encantadora e elegante simplicidade. Rozaura e Carlos immediatamente se reconhecerão. Aquella mal poude avançar dois ou tres passos pela sala, e estacou como petrificada; Carlos a muito custo poude conter uma explosão de espanto.

Assim permanecerão por alguns instantes em frente um do outro, tolhidos, embaraçados, atonitos, e como que julgando-se victimas de alguma mystificação. Conrado, que ignorava a verdadeira causa daquelle embaraço, attribuindo-o a acanhamento, tratou logo de tiral-os delie.

— Minha filha, — disse, — aqui está o meu amigo o senhor Carlos, estudante do quarto anno, a quem queria apresentar-te.

— Senhor Carlos, — disse Rozaura estendendo-lhe a mão e cobrindo-se de vivo rubor.

— Rozaura ! —ia quasi exclamar o mancebo no arroubo de sua indizivel emoção.

— Minha senhora, —balbuciou elle, — custa" me a crer o que vejo; estava bem longe de esperar encontral-a aqui!...

Que quer dizer isto? — exclamou Conrado com sorpresa. — Pelo que estou vendo já se conhecião?

Sim, senhor, — respondeo Carlos per_ turbado e baixando os olhos. A senhora era minha vizinha no Tabatinguéra; já nos vimos algumas vezes.

— É verdade, murmurou Rozaura. — É singular, — reflectio Conrado.

(continua...)

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