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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Não sei... há de estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é preciso matar a porcada e mandar buscar restilo. Quando se casa uma filha e... filha única, as algibeiras devem ficar veleiras. Já estão todos combinados... é só dar o sinal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande rancho... A latada para a janta há de ser no oitão direito... Já encomendei de Sant'Ana alguns rojões, e o mestre Trabuco prometeu-me uns que deitam lágrimas .. Depois, tiros de bacamarte e ronqueiras hão de troar . . .

—Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da cidade duas dúzias de garrafas de vinho da casa do major...

—Olaré! Você meteu-se em gastos!... Duas dúzias de garrafas de vinho?

—Nhor-sim...

—Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da silva... Para o vigário.. para o major... o coletor... o professor... Enfim, gente de alguma representação, porque com ela conto, sem falar na arraia miada. Isto há de haver um despotismo. Quero que, dez dias antes da fonçonata venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para prepararem sequilhos, tarecos, broas, biscoitos de polvilho e brevidades. Haverá regalo de chocolate todas as manhãs... Você verá que desta festa falarão... E o sapateado à noite? Os descantes?... Talvez se possa arranjar um cururu valente...

—Mas, perguntou Manecão, qu’é de sua filha?

Riu-se Pereira.

—Maganão! não pensa noutra coisa, heim? Também fui assim... cada qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso Senhor Jesus Cristo.

E, saindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:

—Nocência!... Nocência!...

Não teve resposta.

—Coitadinha da pequena, disse ele, há de saltar que nem veadinha, quando voltar do rio.

E acrescentou:

—Já que ela não vem... entremos. Você é de casa: tome por cá e chegue até o meu quarto... Rede e peles macias não faltam.

Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no ombro de Manecão e fê-lo seguir para o lanço do fundo da casa.

CAPÍTULO XXVII

CENAS ÍNTIMAS

Santa Maria. advogada nossa, ouvi nossos rogos. Virgem pura, ante Vós se prostra uma infeliz donzela.

(Walter Scott, Os Dois Desposados).

Descrever o abalo que sofreu Inocência ao dar, cara a cara com Manecão fora impossível Debuxaram-se-lhe tão vivos na fisionomia o espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do próprio pai habitualmente tão despreocupado, foi repentino.

—Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

—Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que meto medo a senhora dona...

Batiam de comoção os queixos da pobrezinha: nervoso estremecimento balanceava-lhe o corpo todo.

A ela se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

—Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

—Já sei o que é... Ficou toda fora de si... vendo o que não contava ver...

Vamos, Nocência, deixe-se de tolices.

—Eu quero, murmurou ela, voltar para o meu quarto.

E encostando-se à parede, com passo vacilante se encaminhou para dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-se à mesa e fora, com a vista, seguindo aquela a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte dele Pereira com ar de admiração.

—E que tal? exclamou por fim... Ninguém pode contar com mulheres, iche!

Nada retorquiu o outro.

—Sua filha, indagou ele de repente com voz muito arrastada e parando a cada palavra, viu alguém?

Descorou o mineiro e quase a balbuciar:

—Não... isto é, viu... mas todos os dias... ela vê gente... Por que me pergunta isso?

—Por nada...

—Não;... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um pouco... anarquizado. Este negócio é muito, muito sério. Dei-lhe palavra de honra que minha filha havera de ser sua mulher... a cidade já sabe e... comigo não quero histórias... t: o que lhe digo.

—Esta bom, replicou ele, nada de precipitações. Toda a vida fui assim... Já volto; vou ver onde pára o meu cavalo.

E saiu, deixando Pereira entregue a encontradas suposições.

Decorreram dias, sem que os dois tocassem mais no assunto que lhes moía o coração. Ambos, calmos na aparência, viviam vida comum, visitavam as plantações, comiam juntos, caçavam e só se separavam á hora de dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos hóspedes.

Inocência não aparecia.

Mal saia do quarto, pretextando recaída de sezões: entretanto, não era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa sofria morte e paixão; e amargas lágrimas, sobretudo à noite, lhe inundavam o rosto.

—Meus Deus, exclamava ela, que será de mim? Nossa Senhora da Guia me socorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta desgraça? Eu vivia tão sossegada neste retiro, amparada por meu pai... que agora tanto medo me mete... Deus do céu, piedade, piedade.

(continua...)

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