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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Dizendo isto, Melchior recolheu-se ao silêncio, como se refletisse ainda alguma coisa. Estácio erguera-se e entrara a passear lentamente. De quando em quando, apertava a cabeça entre as mãos; tantas comoções bastavam para atordoar mais forte espírito. O mistério o cercava de todos os lados. Ele ia até à janela, daí até à porta, intercalando as reflexões interiores com sacudimentos nervosos do braço ou da cabeça. A intervalos, olhava a furto e de través para o capelão, como o criminoso olha para a consciência; não podia evitar o sentimento de terror, e ao mesmo tempo de respeito, que lhe infundia aquele investigador exato e profundo de seus sentimentos mais recônditos e inacessíveis. Ruminava o que o padre lhe dissera; cada minuto lhe ia tornando mais clara a verdade revelada, e o que era obscuro fizera-se-lhe enfim transparente. É assim que a luz de um astro, acesa desde séculos, chega finalmente a ferir a retina de nossos olhos mortais.

Uma vez, interrompendo os passos, ergueu os olhos para o retrato do conselheiro. Não os retirou aterrado; cravou-os com ar de reproche e de amargura, em que o padre reparou, e que o fez sorrir tristemente. O olhar do filho pedia contas ao pai.

Paz aos mortos! observou Melchior. Os atos de seu pai já não pertencem à jurisdição deste mundo.

Melchior proferiu estas palavras já de pé.

O Dr. Camargo, disse ele mudando de tom, deve chegar um dia destes, segundo anuncia. Há alguma razão para demorar o casamento?

Nenhuma.

Convém realizá-lo imediatamente?

Imediatamente.

Melchior caminhou para a porta. Ia dar volta à chave e deteve-se.

Antes de nos separarmos, disse ele, desejo a promessa de que não falarás a Helena antes de amanhã.

Prometo.

O padre refletiu um instante; Estácio pareceu adivinhá-lo.

Quer ainda outra promessa, perguntou ele. Quer que a evite de todos os modos?

Sim; que a considere como pessoa totalmente estranha.

Poderia ser de outra maneira? observou melancolicamente Estácio. Os sucessos destes dias são, por enquanto ao menos, uma barreira entre ela e sua família. Demais, eu seria destituído de todo o senso moral...

Juras?

Juro.

Melchior desabrochou a camisa, e aventou um crucifixo de marfim, que lhe pendia de uma fita preta, ao pescoço.

Este, disse ele com voz singela, é a efígie do teu Deus. Tão puro exemplo de castidade não viram os séculos nem antes nem depois que ele desceu à terra. Jura o que me prometes.

Padre-mestre, retorquiu Estácio; minha palavra era bastante. Mas, se é preciso afirmação mais solene, eu a darei tal qual me pede.

Estácio inclinou a cabeça sobre o crucifixo e beijou-o respeitosamente; depois beijou a mão ao padre. Melchior abençoou-o e saiu.

Saindo do gabinete de Estácio, dirigiu-se para a sala de costura, onde achou D. Úrsula um pouco menos agitada.

Falou a Helena? perguntou ela, dirigindo-se ao padre.

Ainda não; sei que não quer sair do quarto; deixemos passar a primeira comoção.

Amanhã virei saber tudo. Por hoje é preciso que a senhora sossegue.

Oh! estou sossegada! Não perdi a confiança.

D. Úrsula proferiu estas palavras com tamanha serenidade e tão profunda convicção que fortaleceu o espírito do próprio Melchior, aliás não inclinado a crer no mal. O ancião deteve-se alguns instantes a contemplar o rosto plácido de D. Úrsula, a admirar a força secreta que a tornava surda ao clamor da realidade, — pelo menos, da realidade aparente. Contemplou-a silencioso, e desceu à chácara.

CAPÍTULO XXIV

A noite era escura. Calcando a terra e a areia das largas calhes da chácara, Melchior, em sua imaginação, refloria o passado, nem sempre feliz, mas geralmente quieto. Mais de uma vez buscara dissipar a sombra pesarosa que alguns erros do conselheiro acumularam na fronte da consorte. Haveria naquela casa uma geração de dores, destinadas a abater o orgulho da riqueza com o irremediável espetáculo da debilidade humana?

“Não, dizia ele consigo mesmo. A verdade é que tudo se encadeia e desenvolve logicamente. Jesus o disse: não se colhem figos dos abrolhos. A vida sensual do marido produziu o infortúnio calado e profundo daquela senhora, que se foi em pleno meio-dia; o fruto há de ser tão amargo como a árvore; tem o sabor travado de remorsos.”

Neste ponto chegava ao portão. Aí deteve-se um instante. O passo cauteloso e tímido de alguém fê-lo voltar a cabeça. Um vulto, cujo rosto não via, tão escuro como a noite, ali estava e lhe tocava respeitosamente as abas da sobrecasaca. Era o pajem de Helena.

Seu padre, disse este, diga-me por favor o que aconteceu em casa. Vejo todos tristes; nhanhã Helena não aparece; fechou-se no quarto... Me perdoe a confiança. O que foi que aconteceu?

Nada, respondeu Melchior.

Oh! é impossível! Alguma coisa há por força. Seu padre não tem confiança em seu escravo. Nhanhã Helena está doente?

Sossega; não há nada.

Hum! gemeu incredulamente o pajem. Há alguma coisa que o escravo não pode saber; mas também o escravo pode saber alguma coisa que os brancos tenham vontade de ouvir...

Melchior reprimiu uma exclamação. A noite não lhe permitia examinar o rosto do escravo, mas a voz era dolente e sincera. A idéia de interrogá-lo passou pela mente do padre, mas não fez mais do que passar; ele a rejeitou logo, como a rejeitara algumas horas antes. Melchior preferia a linha reta; não quisera empregar um meio tortuoso. Iria pedir a Helena a solução das dificuldades. Entretanto, o pajem, como interpretasse de modo afirmativo o silêncio do sacerdote, continuou:

Nhanhã Helena é uma santa. Se alguém a acusa, acusa o bom procedimento dela.

Eu lhe direi tudo...

(continua...)

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