Por Eça de Queirós (1925)
Arthur tomou um jornal d sentou-se ao pé da janella. Nas paredes, maços de jornaes desdobrados pendiam de ganchos, resmas de periodicos atulhavam os cantos e um tenue véu de poeira cobria tudo : os papeis, as cadeiras, o velho mappa de Portugal e Hespanha ; a rua, fóra, tinha um silencio pacato ; n'uma janella fronteira, um pintasi]go cantava na gaiola, e as tesouras enormes do sujeito de lunetas iam retalhando os jornaes.
— Oh, Esteves, trouxeram as chegadas ? — disse de repente Melchior, D a um Signal affirmativo do outro : — Dictas, fazes favor
Esteves procurou. entre a papelada uma tira rabiscada a lapis e começou immediatamente, n'uma voz um pouco rouca, extremamente monotona :
« O eonselheiro Abilio de Azevedo, de Villa Nova de Famalicão, hospedado nos Embaixadores » Melch i or escrevia, murmurando alto :
— « Chegou o nosso prezado amigo o Ex. mo Snr.
Conselheiro Abilio . - . Nova de Famalicão »
Com um Z só
O outro moveu affirmativamente a cabeça e proseouiu :
« O Visconde da Ameixoeira, de Vizeu, e sua respeitavel familia . . O nosso assignante Thadeu Carneiro . . . O illustre proprietario Eustacio Alcoforado » — Não, este partiu, partiu para Bordeus. — Partiu ou chegou, menino ? É que não é a
mesma cousa . — exclamou Melchior. Deu uma rigadinha, voltado para Arthur, tomou uma fumaça do charuto e pediu a Esteves que por caridade lhe dictasse os annos h.
Esteves, com um gesto lasso, tirou d'uma gaveta. um Almanach, @om folhas brancas intercala das, bocejou profundamente e começou no seu tom soturno :
« Dia 14 de Dezembro O commendador Figueiredo . . . grandissima besta ! A Snr. a D. Ernes tina da Conceição Valladares O engraçado actor Maldonado , . .
Melchior suspendeu a penna e olhando para Esteves fixamente :
— Está lá engraçado ? Isso é de ha dous annos ! Agora elle faz papeis serios.
Esteves reflectiu, tirando pelliculas dos beiços : — Põe o esperançoso.
O esperançoso ? um homem que representava havia doze aunos ! . . .
E olhavam-se embaraçados, na urgencia d'um adjectivo.
Então Arthur adentou o rosto, risonho, obsequiador, e disse :
— O impressionante, talvez,
— Magnifico ! — exclamou Melchior, escreven do regalado. E, um momento, olhou Arthur com respeito. — Que mais, Esteves ? Vá, homem, vá !
« O vereador Fernando Cardoso A mnocente filha da Snr. a D. Elvira Cunha Rego . . . O distincto poeta Augusto Roma, ilustre auctor dos Idyllios e
Devaneios . . . »
Uma porta lateral abriu-se, e uma face branca e balofa, com lunetas d'ouro e um bigode tão preto que parecia de crepe postiço, mostrou-se, dizendo com voz de papo :
— Oh, Melchior, redige ahi uma noticia da chegada do Meirinho, de Paris . . O homem já me fallou n'isso tres vezes. Trouxe-me uma lapizeira, coitado. Sete ou oito linhas catitas.
E a porta fechou-se.
Melchior tornou-se grave, esfregou as mãos devagar, accendeu reflectidamente outro charuto, e com os cotovellos sobre a mesa, os olhos cerrados, poz-se a coçar lentamente a calva ; depois, escreveu, riscou, releu, recomeçou e por fim recostando-se na cadeira, murmurou exhausto :
— Não estou de maré. Hoje não vae . . .
N 'esse momento, o sujeito de lunetas d'ouro voltou de dentro, de chapéu na cabeça, calçando as luvas :
— Fizeste
Melchior qne estaya pesado da cabeça. —- Escreve lá, homem ! — disse o de lunetas d'ouro, encolhendo os hombros com o desdem d'um
'ricaço d'idéas : — [Eemos entre nós o nosso pre-
zado amigo João Meirinho, um dos ornamentos mais brilhantes do nosso high-life. S. Ex. a que é egualmente estimado em todas as cap taes da Eliropa . . . » Hesitou, passou os dedos pelas sobrancelhas e com a testa muito franzida, « . . . da Europa, onde as suas qualidades eminentes o tornam o alvo dos respeitos de todas as classes, é sempre bemvindo á formosa cidade do Tejo, onde . . . 9
— Ha dous ondes — advertiu baixo Melchior. — Deixa haver ! Põe . a cuja sociedade elle traz a animação, que é o distinctivo da brilhante » — Ha dous brilhantes — corrigiu Melchior.
A observacào, deante d'um estranho, de certo irritou o sujeito, que replicou seccamente :
— Mette-te lá com a tua vida ! — Põe : . . . da esplendida capital da França, esse esplen . . . esse resplandecente centro da Arte e das Letras. » — Ora ahi tem o menino, uma noticiazinha chic !
Ia a sahir, mas Melchior erguendo-se ceremo niosamente :
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.