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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Deve ter compreendido que lhe voto um fervente afeto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os faróis da minha vida, e como a estrela do navegante) que também tu, minha Ameliazinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros números, e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o Céu se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Por que não respondeste pois? Se pensas que o nosso afeto pode ser desagradável aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior pecado cometes trazendo-me nesta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha a/ma no divino sacrifício. Se eu visse que este mútuo afeto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh, minha bem amada filha, façamos o sacrifício a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha a/ma e vejo nela a brancura dos lírios. E o teu amor também é puro como a tua a/ma, que um dia se unirá à minha, entre os coros celestes, na bem-aventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morena/, pela tarde. Pois eu anseio por te exprimir todo o fogo que me abrasa, bem como falar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos êxtases duma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a oferta do coração do teu amante e pai espiritual,

Amaro."

Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ela bem dobrada no bolso da batina foi à Rua da Misericórdia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda de Natário, discutindo.

- Quem está por cá? - perguntou à Ruça, que alumiava, encolhida no seu xale.

-.As senhoras todas. Está o Sr, padre Brito.

- Olá! Bela sociedade!

Galgou os degraus, e à porta da sala, com o seu capote ainda pelos ombros, tirando alto o chapéu:

- Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.

Natário, imediatamente, plantou-se diante dele e exclamou:

- Então que lhe parece?

- O quê? perguntou Amaro. E reparando no silêncio, nos olhos cravados nele: - O que é? Alguma coisa de novo?

- Pois não leu, senhor pároco? exclamaram. Não leu o Distrito!?

Era papel em que ele não pusera os olhos, disse. Então as senhoras indignadas romperam:

- Ai! é um desaforo!

- Ai! é um escândalo, senhor pároco!

Natário com as mãos enterradas nas algibeiras contemplava o pároco com um sorrizinho sarcástico, saltando dentre os dentes:

- Não leu! Não leu! Então que fez?

Amaro reparava, já aterrado, na palidez de Amélia, nos seus olhos muito vermelhos. E enfim o cônego erguendo-se pesadamente:

- Amigo pároco, dão-nos uma desanda...

- Ora essa! exclamou Amaro.

- Tesa!

O senhor cônego, que trouxera o jornal, devia ler alto - lembraram.

- Leia, Dias, leia, acudiu Natário. Leia, para saborearmos!

A S. Joaneira deu mais luz ao candeeiro: o cônego Dias acomodou- se à mesa, desdobrou o jornal, pôs os óculos cuidadosamente, e, com o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura do Comunicado na sua voz pachorrenta.

O princípio não interessava: eram períodos enternecidos em que o liberal exprobrava aos fariseus a crucificação de Jesus: - "Por que o matásteis? (exclamava ele). Respondei!" E os fariseus respondiam: - "Matamo-lo porque ele era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma nova era", etc. O liberal então esboçava, a largos traços, a noite do Calvário: - "Ei-lo pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua túnica jogada aos dados, a plebe infrene", etc. E, voltando a dirigir-se aos fariseus infelizes, o liberal gritava-lhes com ironia: - "Contemplai a vossa bela obra!" Depois, por uma gradação hábil, o liberal descia de Jerusalém a Leiria: - "Mas pensam os leitores que os fariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemo-los nós; Leiria está cheia deles, e vamos apresentá-los aos leitores..."

- Agora é que elas começam, disse o cônego olhando para todos em redor, por cima dos óculos.

Com efeito "elas começavam"; era, numa forma brutal, uma galeria de fotografias eclesiásticas: a primeira era a do padre Brito: - "Vede-o, (exclamava o liberal) grosso como um touro, montado na sua égua castanha..."

- Até a cor da égua! murmurou com uma indignação piedosa a Sra. D. Maria da Assunção.

"... Estúpido como um melão, sem sequer saber latim ..."

O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.

"... Espécie de caceteiro", continuava o cônego, que lia aquelas frases cruéis com uma tranqüilidade doce, "desabrido de maneiras, mas que não desgosta de se dar à ternura, e, segundo dizem

os bem informados, escolheu para Dulcinéia a própria e legítima esposa do seu regedor..." O padre Brito não se dominou:

- Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recaindo pesadamente na cadeira.

- Escute, homem, disse Natário.

- Qual escute! O que é, é que o racho!

Mas se ele não sabia quem era o liberal!

- Qual liberal! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor Godinho é que é o dono do jornal.

O doutor Godinho é que eu racho!

A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas à coxa.

Lembraram-lhe o dever cristão de perdoar as injúrias! A S. Joaneira com unção citou a bofetada que Jesus Cristo suportou. Devia imitar Cristo.

- Qual Cristo, qual cabaça! gritou Brito apoplético.

Aquela impiedade criou um terror.

- Credo! Sr, padre Brito, credo! exclamou a irmã do cônego, recuando a cadeira.

O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:

- Nossa Senhora das Dores, que até pode cair um raio!

E, vendo mesmo Amélia indignada, o padre Amaro disse gravemente:

- Brito, realmente você excedeu-se.

- Pois se estão a puxar por mim!...

(continua...)

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