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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Mas de novo emudeceram. O Cavaleiro e o Fidalgo reapareciam, numa enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidência da varanda escancarada. Depois o Cavaleiro, com uma familiaridade carinhosa, bateu nas costas de Gonçalo - como se publicasse a sua reconciliação diante da praça maravilhada. E outra vez se sumiram, nesse passear conversado e íntimo, que os trazia da sombra do gabinete para a claridade da janela, roçando as mangas, misturando o fumo leve dos charutos. Embaixo o bando crescia, mais excitado. Passara o Melo Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado; e, chamados com ânsia, cada um correra, devorara esgazeadamente a novidade, embasbacara para o velho balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do relógio do Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dois Vila-Velhas, outros "rapazes", estafados, retrocederam às cadeiras de verga da Tabacaria. O Dr. Delegado, que jantava às quatro e sofria do estômago, despegou desconsoladamente dos Arcos, suplicando ao Pestana seu vizinho "que aparecesse ao café para contar o resto... "Melo Alboim, esse, enfiara para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do largo; e da janela, disfarçado por trás da mulher e da cunhada, ambas de chambres brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Exa. com um binóculo. Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Então o Barão das Marges, na sua impaciência

borbulhante, decidiu subir ao Governo Civil, "para farejar!..."

Mas nesse momento André Cavaleiro assomava de novo à varanda - sozinho, com as mãos enterradas no jaquetão de flanela azul. E quase imediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil, atravessou a praça, com os estores verdes meio corridos, descobrindo apenas, àqueles cavalheiros ávidos, as calças claras do Fidalgo.

- Vai para os Cunhais!

Lá o apanhava poiso Barrolo! E todos apressaram o bom Barrolo a que montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances daquela paz histórica! O Barão das Marges até lhe segurou o estribo. Barrolo, alvoroçadamente, trotou para o largo de El-Rei.

Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhais, seguia para a Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanso à parelha esfalfada. E logo depois das últimas casas da cidade subiu os estores, respirou deliciosamente, com o chapéu sobre os joelhos, a luminosa frescura da tarde - mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as tardes da sua vida... Voltava de Oliveira vencedor! Furara enfim através da fenda, através do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!... Abençoado Gouveia, esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na véspera, pela Calçadinha de Vila-Clara!...

Sim, decerto, fora custoso aquele mudo momento em que se sentara secamente, hirtamente, à borda da poltrona, junto da pesada mesa administrativa de S. Exa.. Mas mantivera muita dignidade e muita simplicidade...- "Sou forçado (dissera) a dirigir-me ao Governador Civil, à Autoridade, por um motivo de Ordem Pública..; E a primeira avença partira logo do Cavaleiro, que torcia a bigodeira, pálido: - "Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo, que Gonçalo Mendes Ramires se dirija..." Ele ainda se conservava retraído, resistente, murmurando com uma frieza triste: - "As culpas não são decerto minhas..." E então o Cavaleiro, depois de um silêncio em que lhe tremera o beiço: "Ao cabo de tantos anos, Gonçalo, seria mais caridoso não aludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que, pelo menos, em mim, se conservou a mesma, leal e séria". A esta sensibilizada invocação, ele volvera, com doçura, com indulgência: - "Se o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu não posso negar que em mim também ela nunca inteiramente se apagou..." Ambos balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desacordos da vida. E quase insensivelmente se trataram por tu! Ele contou ao Cavaleiro a torpe ousadia do Casco. E o Cavaleiro, indignado como amigo, mais como Autoridade, telegrafara logo ao Gouveia um mandado forte para inutilizar o valentão dos Bravais... Depois conversaram da morte do Sanches Lucena, que impressionava o Distrito. Ambos louvaram a beleza da viúva, os seus duzentos contos. O Cavaleiro recordou a manhã, na Feitosa, em que entrando pela porta pequena do jardim a surpreendera, dentro de um caramanchão de rosas, a apertar a liga. Uma perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Ana, apesar dos duzentos contos e da divina perna... - Já entre eles se restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era "tu Gonçalo, tu André, oh menino, oh filho!"

E fora André, naturalmente, que aludira à desaparição do Deputado do Governo, à surpresa do circulo vago... Ele então, com indiferença, estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa, murmurara:

- Sim, com efeito... Vocês agora devem estar embaraçados, assim de repente...

Mais nada! Apenas estas indolentes palavras, murmuradas através do rufo. E o Cavaleiro, logo, sem preparação, apressadamente, empenhadamente, lhe oferecera o círculo! - Pousara os olhos nele com lentidão, como para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:

- Se tu quisesses, Gonçalo, não estávamos embaraçados...

Ele ainda exclamara, com surpresa e riso:

- Como, se eu quisesse?

E o André, sempre com os olhos nele cravados, os largos olhos lustrosos, tão persuasivos:

- Se tu quisesses servir o País, ser Deputado por Vila-Clara, já não estávamos embaraçados,Gonçalo!

Se tu quisesses... E perante esta insistência que rogava, tão sincera e comovida, em nome do País, ele consentira, vergara os ombros:

- Se te posso ser útil, e ao País, estou às vossas ordens.

(continua...)

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