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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Agora é tempo de dizer que Silvestre saíra muito empenhado do Porto e os credores o tinham em conta de insolvente por saberem que a sua pequena casa estava hipotecada a dívidas mais antigas. Ora, como quer que os credores o vissem tratado nos periódicos como proprietário e indagassem, até saber que ele casara rico, e onde, remeteram deprecadas para ele ser citado com sua mulher. Então se saiu Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver de sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até à data do casamento. Os credores mais antigos saíram com as suas acções de execução sobre as hipotecas e retiraram pasmados de verem cópias de escrituras anteriores. O certo é que Silvestre da Silva, se necessário fosse, mostraria que seus avós tinham hipotecado a casa, alguns séculos antes de ela existir.

É mui pouco de louvar-se este proceder; mas uma razão ilustrada concede que um homem maltratado pelas mulheres se vingasse nos credores. Um espírito sublime, quando trata de despicar-se, vinga-se em globo.

Verdadeiramente inultos são aqueles que nem credores têm sequer!

O sargento-mor, conquanto fosse carácter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza. A comenda iluminara-lhe o espírito, a cuja luz ele viu as coisas, os homens e a época.

Ao terceiro ano de casado, Silvestre formava com o peito e abdómem um arco. A gordura embargava-lhe a acção e abafava-lhe o espírito nas enxúndias.

Vi-o na Foz, e conheci então a Sra. Tomásia, e seu pai, e um menino de dois anos, que era a doidice do avô.

Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim e dizia:

- Ainda estás nisso, pobrezote?! Esquece-te, brutaziza-te, faz-te estômago, se quiseres viver à imagem de Deus, que faz os homens neste tempo!

O único livro que lhe vi à cabeceira da cama era a Fisiologia do Paladar, de Brillat-Savarin, e a Gastronomia, poema de Bouchet.

Pediu-me que fosse passar com ele uma temporada a Soutelo, se queria voltar ao mundo com alma nova. Anuí, e lá me detive dois meses, voltando com o estômago arruinado pelo sarro do muito toucinho sobre o qual o meu amigo me prometia reconstruir o aparelho espiritual.

Observei, na Foz, que Silvestre procurava a distracção do jogo: dizia que a fortuna dos seus credores dependia dos ganhos que ele obtivesse. Os credores do meu amigo perdiam com ele, como pessoas infelicíssimas que eram.

Explicava Silvestre a excentricidade deste mundo, julgando-o bom e de nenhum modo interessado em ludibriar-me, o mundo folgou de explorar um tolo que abria o coração e a algibeira a todas as perfídias e zombarias.

Não tive um sincero amigo que me desse dinheiro sem primeiro me furar as algibeiras para o aparar com uma das mãos, enquanto a outra mo emprestava, já cercado dos juros. Os meus mais dedicados amigos serviamme de indicadores de usurários, que me davam o décimo do valor da letra, que eu assinava. Era um jogo de ladrões; foram empréstimos da infâmia; só podem ser pagos com infames meios. A consciência de Santo António e de S. Francisco das Chagas não foram mais puras do que há-de ir a minha à presença do supremo Juiz. Creio que não devo nada, porque os juros que paguei excedem o capital: ora o que eu não devo só por absurdo posso pagá-lo com o que não for meu.

Parece-me que a lógica manqueja nesta argumentação. Seja como for, há muito quem deixe de pagar como Silvestre da Silva; mas não pagar, firmado em raciocínios, à primeira vista, irrefutáveis, nisso é que ele foi singular.

Direi o que me pareceu a vida doméstica do meu amigo.

D. Tomásia adorava-o e, sem o querer, polira-se por amor dele, a ponto de renunciar às suas antigas ocupações de portas adentro. Andavam à competência de quem engordaria mais; e, nas horas de dormir, excediam a toda a gente, menos um ao outro. Silvestre levara do Porto um cozinheiro, que contribuiu grandemente para derrancar o estômago do sargento-mor e dos padres. A mesa de Silvestre cobrou fama nos arredores, principalmente depois que o boticário, comensal insaciável, morreu de uma indigestão de almôndegas. Estava sendo no Verão que eu lá passei muito concorrida a casa de famílias remotas, entre as quais vi gente que o dilúvio respeitou, e eu também.

Posso jurar que Silvestre nunca deu sombra de ciúme a sua mulher. A segurança em que mutuamente se tinham é escusado dizê-la. D. Tomásia era folgazã, ria até arrebentar, fazia rir com as suas simplicidades: porém, no que diz respeito à invulnerabilidade da sua castidade de esposa, nunca ninguém, excepto a leitora casada, me deu tão alto grau de certeza. E era bela, a não poder ser mais, aquela mulher de trinta e dois anos! A mesma exuberância de carnes parecia enfeitar-lhe as formas duma certa majestade, que faria o terror de Vossa Excelência, menina de Lisboa, cuja cintura, como a quebrar-se, vai ondeando ao capricho da brisa.

(continua...)

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