Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

- O fidalgo não é homem, por mais que me digam! Há Deus ou não há Deus?! Então sua mãezinha esteve a criar um menino na lei de Cristo, para V. Exª dar esta saída! Pensa que eu não sei o que lá tem na cabeça? O Sr. Afonso quer dar cabo de si... Pois, ande lá por onde quiser, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moço de vinte e cinco anos, que sabe ler e escrever, e em boa saúde! Isso não o faz homem nenhum no seu juízo! Quem precisa, trabalha: se não é nisto, é naquilo. E os que perdem tudo o que têm num fogo, ou no mar, matam-se? Ora, Sr. Afonso, eu dos anos que tenho ainda não topei homem tão desanimado!... Valha-o a alminha da Sr. D. Eulália! Quer o fidalgo uma coisa? Eu vou vender algum desse ouro que aí tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que é seu amigo e o Sr. Fernão de Fonte Boa morreu sempre por V. Exª. Não se lhe pede dinheiro nem coisa que o valha: pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar não é vergonha, é honra, fidalgo!... Que me diz? Que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao colo e aqui está de joelhos aos seus pés?

E abraçou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflamados de lágrimas.

Afonso levantou-o nos braços trementes de grata comoção e disse-lhe com transporte:

- Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descansa, que eu não me mato... A desgraça me irá matando..

Com referência àquelas chãs e firmes expressões do servo rústico me disse Afonso:

"Eu tinha lido na véspera daquele dia uns livros de insinuante moral, e consolação a desvalidos, pedindo-lhes crença que me esteasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na ceifada negridão de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangélica unção, factos tormentosíssimos de angústia e admiráveis de conformidade, desde Job até ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionara, nada me demovera do suicídio. Vi uma réstia de luz instantânea reflectida no rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repelira. Ainda o apego à existência, exprimindo-se nas frases positivas dela, me quis mostrar a felicidade possível no casamento com minha prima. Afastei com tédio de mim próprio este impudor de alma envilecida pela desgraça. O homem rico não reconhecera a virtude de Mafalda, senão para admirá-la; o homem desvalido havia de ir depois pedir à virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acometesse o pensamento vil. Dei-me então pressa em abreviar o termo da luta! Depois disto, como é possível que as rudes palavras de um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convicções acerca da coragem do homem que se mata? Como logrou ele o que os livros consoladores não vingaram, nem os estímulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquelas palavras: quem preta, trabalha, ditas pelo homem que as tirara da sua consciência, como se elas descessem do Céu, naquele momento, para me serem ditas, não pela página de um livro, mas pela boca de quem as dizia, chorando."

Afonso de Teive, com mais coragem do que a necessária para o suicídio, dirigiu-se a uma casa de comércio de judeus de procedência portuguesa, residentes em Paris.

Conhecera Afonso um mancebo desta família no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o e contou-lhe o seu estado, oferecendo-se a trabalhar no escritório, segundo sua aptidão. Os comerciantes aceitaram-no como terceiro-ajudante de guarda-livros com o ordenado de dois mil francos.

Vendeu Afonso as suas jóias e alugou uma mansarda, que mobilou consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavalo, a que ele chamava um milagre, e uma carroça, com que trabalhava de carrejão, nas horas ocupadas do amo. As horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar económico para ambos, todavia asseado e abundante. Afonso passava em casa as noites, estudando a língua inglesa para poder adiantar-se na sua carreira, até merecer os seis mil francos de primeiro-adjunto ao guarda-livros.

Se era feliz assim?

Oh! não: nem tudo que é honroso se há-de crer que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanças assim abruptas, com as quedas de tão alto! O magnificente amante de Palmira, o moço blandiciado nas salas do seu palácio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de seda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente não podia escrever odes à fortuna amiga quando saia de escrever cifrões no escritório mercantil. O reportar-se também não é ser feliz; é, no máximo das vezes, um martírio consecutivo de triunfos obscuros; porém, martírio sempre!

E, depois, Afonso entrava futuro dentro, fantasiando mudanças, quimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que ele bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ela e. Destas vãs e ardentes consultas ao porvir voltava o moço ao refrigério do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueandolhe os cabelos e quebrando-lhe os espíritos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5354555657...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →