Por Coelho Neto (1890)
— Não, temos muito tempo, receita primeiro.
— Não há pressa; já estou melhor, disse Anselmo.
— Isso não é nada. Levantou-se, deu um puxão ao colete e, coçando o pescoço, com a cabeça derreada, repetiu: Pois é isto: no Brasil ninguém Vive de letras, isto é um país sem tradição, sem fastos. Quer saber? O Brasil começou escravo, ganhou a liberdade e fez-se traficante e comboieiro, depois atirou-se a um balcão de negócio, não teve tempo de aprender a ler: é um analfabeto milionário. É possível que os netos venham a interessar-se pelas coisas intelectuais, mas por enquanto, meu amigo, só há uma preocupação — o café. Qual é o homem de letras que, entre nós, vive exclusivamente da pena? Qual é? Nenhum...
— Mas vem receitar, homem! — insistiu Ruy Vaz.
— Já vou. Nenhum... E não é por falta de talento, aqui há tanto talento como em França, ou mais! Confirmou atirando um gesto violento: Ou mais! O senhor vê por aí rapazolas, sem exame de português, fazendo versos que espantam. Meu sobrinho, o Alceu... tu conheces, Ruy... é um menino! Tem quatorze anos... pois escreve poesias que admiram. Aquela que ele publicou, a propósito do 28 de Setembro. Cravou os olhos em Ruy Vaz. Não te recordas...? — Sim, sim...
Não satisfeito com a afirmação do romancista, o médico, unindo o polegar e o índex, numa voz melíflua, pôs-se a recitar pausadamente, balançando o corpo, fazendo sentir as rimas:
Salve! emérito visconde
Que hoje nos meus versos lembro,
Pai dessa lei de Setembro Que os ventres santificou, Salve! herói...
E por aí vai. Não te lembras? Vai agora fazer exame de português. É o que eu digo: no Brasil há talento de sobra... Encaminhou-se para o lavatório e pôs-se a remexer como se procurasse alguma coisa.
— Que queres?
— Vocês não têm por aí uma tesourinha de unhas?
— Tem cá fora.
— Pois é como eu digo. Forme-se, o senhor está no terceiro ano, pouco falta; forme-se, tire o seu diploma e depois, nas horas vagas, escreva o seu soneto, a sua quadra, mas ouça a palavra de um experimentado: não queira viver de literatura: o verso não paga a casa nem corre no armazém. Olhe o Alceu... Eu acho que ele tem talento, mas estou sempre a dizer ao pai: "Acaba com essa mania do pequeno enquanto é tempo, antes que se torne um vício, porque depois, meu amigo..." Mas não, acham graça... Dá em poeta e hão de ver o bonito. Vamos lá à receita.
— Ora graças a Deus! — exclamou Ruy Vaz.
— Homem, deixa-me prosar um bocado, também não é só Medicina. Isto não é nada. Amanhã está pronto. Vem uma pomada e uma poção para tomar aos cálices. Amanhã ou depois está pronto.
— E se eu piorar, doutor?
— Qual piorar! Isto não é nada. Em todo o caso, amanhã dou um pulo aqui...
e trago-lhe os versos do Alceu, quero a sua opinião. O pequeno tem jeito, vai ver. Versos no gênero dos de Castro Alves, sabe? E recitou soturnamente:
É a hora das epopéias, Das ilíadas reais...
Conhece? Pois amanhã trago-lhe os versos. Mas nada disso, nada disso:
forme-se primeiro, tire a sua carta e depois publique quantas poesias quiser. Antes disso, nada. Noutro tom: É bom conservar-se na cama, ouviu...? Coma pouco e tenha o braço em repouso. Vou fazer a receita. Consultou o relógio: O diabo! Que é do papel?
— Cá fora.
— Tenho de ir ainda a Laranjeiras. Saiu para a sala e, pouco depois, tornou com o chapéu e o guarda-chuva: Até amanhã; eu passo aqui. Tem ainda febre, mas pouca... Vêm também umas cápsulas de quinino. Isto não é nada. Pode tomar o seu leite, pode comer o seu bifezinho com batatas e... forme-se, aceite o meu conselho, depois de formado, então, faça o que lhe der na cabeça. Até amanhã. Se houver alguma novidade mande-me um recado à casa.
— Obrigado, Teixeira! — disse Ruy Vaz acompanhando-o.
— Ora, obrigado... Quando sai o teu livro?
— Não sei ainda.
— Tu é que vais vivendo, heim?
— Pois não.
— Adeus! Vou ainda a Laranjeiras. Até amanhã.
— Até amanhã.
— Que homem gárrulo! — exclamou Anselmo vendo Ruy Vaz aparecer com a receita.
— É extraordinário! Esse Teixeira é tudo: filósofo, músico, político, poeta... O tal menino Alceu de que ele falou, que é um tipo acabado de cretino, é o seu testa de ferro. Quando o Teixeira quer impingir alguma das suas composições, apela para o pequeno. Eu conheço-o! Durante a minha moléstia ouvi todo um drama do menino Alceu. É um caso!
Oito dias depois Anselmo estava restabelecido, mas não pôde gozar a delícia da convalescença, porque o alemão rosnava pelo corredor, achando longa a demora do pagamento. Carlota, carrancuda, fazia a limpeza dos aposentos sem pronunciar palavra Estavam, de novo, sitiados. Uma manhã, muito cedo, Ruy Vaz levantou-se e começou a vestir-se apressadamente.
— Onde vais tão cedo, homem?
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.