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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Entrego me em tuas mãos, meu Frederico ; si bem que nada espere nem do tempo, nem das distracções, nem mesmo da tua amizade para mitigar a angustia que me devora ; vou para onde quízeres levar-me; abdico em tuas mãos a minha vontade, como um automato, cujos movimento dirigirás a teu bel prazer, porque de facto tudo me é indifferente; nada me interessa, nada mais desejo neste mundo.

— Isso é por agora, meu Carlos; com o tempo ha de passar esse teu triste desalento. Vamos; quero afastar-te dos labios o teu calix• de amargura ; quero arrancar-te deste Gethzemani, em que pareces querer exhalar a existencia. Lembra-te que estamos em fim de outubro, e é preciso nos prepararmos para o acto.

— Não me falles em actos, nem estudos, nem me faças lembrar de Academia. Si não fosse essa maldita Academia, que aqui me trouxe, eu estaria agora bem tranquilio em minha provincia, e não aqui como ludibrio do destino supportando as mais crueis torturas. Diga-me de que nos serve vir aqui estudar o direito, o dever ea justiça, si elles não são e nunca serão respeitados, nem executados si praticão-se por ahi impunemente todos os dias as mais torpes e atrozes iniquidades, as mais f:agrantes e hediondas violações da lei e do direito? Maldita sciencia, — si é que merece tal nome, maldita sciencia que só existe nos livros e nos codigos, como pura irrisão aos direitos da humanidade, que a sociedade pesa em sua balença corrupta para calcal-os aos pés! . . . Não; não vou nem mais uma vez a Academia. Em novembro irei pela ultima vez á casa de meu correspondente. para ir-me embora.

— Pois bem : vou de accordo com isso, Carlos; a agitação que actualmente te perturba o espirito, não te permitte estudar. Deixarás o teu acto para marco ou abril; será melhor assim. Entretanto por agora me pertences; já o declaraste. Vamos com isto; avia-te, e quanto antes vamo-nos embora daqui.

Carlos vestio-se automaticamente, e os dois amigos, de braço dado, tristes e taciturnos, atravessárão a cidade e dirigirão-se para a casa de Frederico,

CAPITULO XXII

Em casa do correspondente.

Em meados de novembro, vinte dias pouco mais ou menos depois que Frederico tinha levado Carlos para sua casa, ás dez para onze horas do dia, achava-se Conrado sósinho em seu salão de visitas folheando alguns jornaes, que acabava de receber, quando lhe baterão palmas á porta em baixo da escada. Mandou entrar quem fosse, e dahi a alguns segundos apresentou-se na sala um moço pallido, alquebrado, e macilento, na figura do qual Conrado não sem alguma difficudade e depois de alguns instantes de reparo reconheceo Carlos, o estudante, que já é do nosso conhecimento, e que era seu correspondido.

Conrado, quando em seus gyros de muladeiro viajou pela provincia de Minas, passou mais de uma vez pela fazenda do pae de Carlos, com quem neffociou, e em cuia casa encontrou hospitalidade franca e delicada, como se soe dispensar naquella provincia, nascendo dahi relações de pura e boa amizade entre os dous. Por isso quando o fazendeiro teve de mandar seu filho para S. Paulo, o recommendou a Conrado pedindo-lhe que fosse seu correspondente. O paulista acceitou com prazer aquelle encargo, e o seu correspondido por suas bellas qualidades, seu talento e boa conducta grangeou bem depressa sua estima e sympathia.

Carlos frequentava com assiduidade a casa de seu correspondente, onde era tratado com particular distincção e cordial amizade. Depois porém que o nosso estudante se travára de amores com a escrava de Bazilio, suas visitas começárão a escassear de mais em mais até cessarem de todo; havia cerca de dois mezes que não se vião; a ultima mezada Carlos a tinha mandado buscar por um recibo.

— Oh ! mui bem apparecido, meu caro Carlos, — disse alegremente Conrado. — Ha que tempos o não vejo! . . . estava mal commigo? mas estou o achando tão pallido e desfigurado ! tem estado doente?

Algum tanto, senhor Conrado ; tenho soffrido bastante nestes ultimos tempos.

—- Ah! e como não mandou-me dizer nada?... sabe quanto sou amigo de seu pae, e muito pezar me ficaria si o filho do meu amigo soffresse alguma cousa nesta cidade sem eu lhe ter valido em cousa alguma. Tenho estranhado a sua falta, e si não fossem certas occurrencias, que a dias ha esta parte muito me tem preoccupado, ja teria ido procural-o em sua casa.

— Muito obrigado, senhor Conrado; mas não se inquiete; meus incommodos não são talvez de consequencia; mas são do numero daquelles que nem a sciencia, nem os cuidados do homem podem minorar; sómente o tempo...

— Deus o permitta, — interrompeo Conrado. — Então já está preparado para fazer um brilhante acto como é seu costume? . . .

— De modo nenhum; não só não estou preparado, como mesmo não quero, e nem posso fazer acto este anno.

E porque? acaso perdeo o anno em razão da molestia?

Não, senhor; não cheguei a perdel-o, mas dei grande numero de faltas, e nestes dois ultimos mezes quasi nada pude estudar. Pretendo ir passar as ferias em casa, e por isso venho hoje importunal-o para dar-me além da mezada mais algum dinheiro para arranjar conducção.

(continua...)

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