Por Bernardo Guimarães (1869)
O dia já vinha clareando as ermas ribanceiras do Tocantins, e as brisas da manhã, que sopravam frescas, começavam a varrer o tênue vapor branco que a noite estendera sobre as águas como um rio de leite, e que despegava elevandose em níveos flocos por sobre a coma verde-escura das florestas. As selvas enchiam-se de murmúrios, de cantos de aves e gritos de animais de toda a espécie. As águas ressoavam ao saltitar dos peixes, que aqui e acolá faziam brilhar ao sol suas luzentes escamas. Nuvens de aves aquáticas cortando os ares abatiam o vôo e vinham pousar ao longo das praias; a alva e esbelta garça, mais bela que o cisne, o guará e o colhereiro alardeando a beleza de sua mimosa plumagem cor-de-rosa, o corpulento e pesado jaburu, o pato silvestre com suas escuras penas luzentes como o aço polido, e mil outras aves de diversas espécies e tamanhos esvoaçavam, passeavam ou nadavam em bandos por ambas as margens, enquanto pelas altas ramagens, que se debruçavam mirando-se na torrente, miríades de pássaros de mil qualidades batendo as asas inquietas e fazendo imensa algazarra com seus pios e gorjeios, e os sagüis e caxinglerés gritando e saltando de árvore em árvore ou balançando-se nos ramos e cipós das brenhas emaranhadas, enchiam as selvas de vida, bulício e rumor. Ali a anta membruda arrojando-se na água fazia esvoaçarem sobressaltadas com grande ruído uma chusma de aves aquáticas; além a lontra esbelta e viva de um salto emborca-se no rio dando caça aos peixes e surge além tendo atravessada na boca a prateada pirapitinga ou a crumatã de escamas de ouro.
No meio de todas aquelas cenas tão cheias de vida e de beleza de uma natureza virgem e fecunda, Gonçalo ia passando insensível sem nada ver nem ouvir, como o espectro de um condenado através das galas e regozijos de um esplêndido festim. Imóvel, com a fronte descaída sobre o peito, concentrado em seus pensamentos e rodeado dos fantasmas que sua consciência evocava dos túmulos, dir-se-ia um cadáver ou estátua do desespero, se de espaço em espaço um ligeiro e convulsivo movimento lhe não agitasse os membros.
Foi só quando o sol, reverberando todo o seu esplendor sobre a superfície das águas, inundou de luz as pálpebras meio cerradas de Gonçalo, que este despertou de seu profundo e doloroso cismar. Só então Gonçalo, apercebendo-se de que era levado pelas águas de uma caudalosa torrente sem saber para onde, lembrou-se de tomar o remo e dirigir sua canoa... para onde?
O primeiro pensamento de Gonçalo, logo depois de sua luta com Inimá, fora deixar-se levar pelas águas abaixo, até que ele e sua canoa se despedaçassem e submergissem precipitados por alguma cachoeira. Mas a reflexão, o silêncio e a noite tendo-lhe acalmado e esclarecido o espírito, e tendo compreendido que era vontade do céu que ele vivesse, pensou seriamente no destino que devia tomar. Levado durante toda a noite pela torrente abaixo, Gonçalo não sabia em que paragens se achava. Difícil lhe seria regressar pelo rio acima, e nem quereria jamais tornar a ver os sítios fatais em que o céu o fulminara com o mais cruel dos infortúnios. Largar o rio e embrenhar-se sozinho por aquelas imensas selvas e solidões desconhecidas infestadas de Bugres e animais ferozes era também empresa por demais trabalhosa e arriscada. Portanto Gonçalo julgou mais acertado e seguro descer em sua canoa pelo álveo do rio, que lhe oferecia estrada natural e franca até chegar à povoação da Palma, que julgava não dever estar muito longe. Arrancou de si e arrojou ao rio as armas e todos os mais adornos selváticos com que estava ataviado, calcou indignado aos pés o cinto em que se encerrava o amuleto do Africano, e conservando consigo somente com religioso cuidado a medalha da Virgem, tangeu sua canoa pelo Tocantins abaixo, confiando seu destino às águas do rio e à proteção do céu.
Assim em luta contínua com uma multidão de trabalhos, obstáculos e perigos, umas vezes rodando precipitadamente arrebatado por perigosas corredeiras, outras vezes tangendo à força de remo a sua canoa pela torrente nimiamente serena e preguiçosa, sofrendo cruéis privações e alimentando-se apenas de alguns frutos silvestres, que colhia pelas margens, chegou depois de longa e penosa viagem à povoação da Palma.
Os habitantes daquele lugar, ao verem chegar sozinho a suas praias aquele homem quase nu, cobrindo-se apenas com um pequeno saiote, que lhe cingia os rins e lhe descia até os joelhos, e um grande couro de onça, que lhe servia de capa e de leito, com cabelos e barbas compridas, esquálido e extenuado, uns possuídos de terror não ousavam aproximar-se cuidando ver algum fantasma ou algum monstro vomitado pelo rio; outros o tomando por algum louco igualmente o evitavam; não poucos também julgando-o algum Bugre feroz ou algum malfeitor estavam a ponto de o apedrejar. Esta primeira impressão porém não durou por muito tempo; pelo abatimento e profunda tristeza que se lia na fisionomia de Gonçalo, e por suas palavras cheias de senso, que nada condiziam com seu bizarro e selvático exterior, em breve compreenderam que aquele estranho personagem não era mais que uma vítima da sorte, a quem longos trabalhos e desgraças tinham reduzido àquele deplorável estado, e o acolheram com caridosa hospitalidade.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.