Por Machado de Assis (1876)
Maus instintos, não, respondeu Melchior; um desvio da lei social e religiosa, mas desvio inconsciente. Entra em teu coração, Estácio; revolve-lhe os mais íntimos recantos, e lá acharás esse gérmen funesto; lança-o fora de ti, que é o preceito do Eterno Mestre. Não o sentiste nunca; a tentação usa essa tática serpentina e dolosa; é insinuante como a calúnia, e pertinaz como a suspeita. Mas eu sou a verdade que afirma, e a caridade que consola. Digo-te, não que pecaste, mas que ficaste à beira do pecado, e estendo-te a mão para que recues do abismo.
Padre-mestre! murmurou Estácio, cujo coração recebia a influência da palavra de Melchior, a um tempo severa e meiga.
Não fales, continuou o padre; negá-lo é mentir; confessá-lo é ocioso. Como nasceu em teu coração semelhante sentimento? Quis a fortuna que entre vocês dois não houvesse a imagem da infância e a comunhão dos primeiros anos; que, em plena mocidade, passassem, do total desconhecimento um do outro, para a intimidade de todos os dias. Esta foi a raiz do mal. Helena apareceu-te mulher, com todas as seduções próprias da mulher, e mais ainda com as de seu próprio espírito, porque a natureza e a educação acordaram em a fazer original e superior. Não sentiste a transformação lenta que se operou em ti, nem podias compreendê-la., São Paulo o disse: para os corações limpos, todas as coisas são limpas. Vias a afeição legítima naquilo que era já afeição espúria; daí vieram os zelos, a suspicácia, um egoísmo exigente, cujo resultado seria subtrair a alma de Helena a todas as alegrias da terra, unicamente para o fim de a contemplares sozinho, como um avaro.
Ouvindo a palavra do padre, Estácio soletrava o próprio coração e lia claramente o que até então era para ele como um livro fechado. A situação tornava-se, entretanto, por demais aflitiva, profunda a vergonha, intenso o remorso. Estácio ergueu-se: erguendo-se, deu com os olhos no retrato do conselheiro que, na penumbra em que ficava, parecia olhar para o filho e interrogá-lo. Esta circunstância desorientou o moço:
Não, padre-mestre! exclamou ele deixando-se cair na cadeira. É impossível! isto que me está dizendo é um sonho mau, é um funesto equívoco; é impossível; juro-lhe que é impossível. É certo que a amo... que a amava, com sentimentos de irmão; mas esquecer-me, aninhar em minha alma tão odioso afeto... oh! era impossível!
Melchior erguera-se. Após meia dúzia de passos, aproximou-se de Estácio, sobre cuja cabeça estendeu a mão direita, enquanto com a outra lhe erguia a barba, obrigando-o a olhar para ele.
Digo-te que tens uma raiz de má erva no coração; esta é a cruel verdade. Há no homem uma ligação de sentimentos, às vezes inexplicável. Produtos de climas opostos aí se alternam ou se confundem... Mas queres saber o resto?
O resto?
Ouve, continuou o padre, sentando-se. A planta ruim bracejou um ramo para o coração virgem e casto de Helena, e o mesmo sentimento os ligou em seus fios invisíveis. Nem tu o vias, nem ela; mas eu vi, eu fui o triste espectador dessa violenta e miserável situação. São irmãos e amam-se. A poesia trágica pode fazer do assunto uma ação teatral; mas o que a Moral e a Religião reprovam, não deve achar guarida na alma de um homem honesto e cristão.
Impossível! impossível! exclamou Estácio. Mas, dado que assim fosse, por que acumular à dificuldade presente o horror de semelhante revelação?
Porque a revelação explica a dificuldade. Helena não saberá que ama, mas ama. Ora, um amor clandestino, de parceria com esse outro amor incestuoso, embora inconsciente, provaria da parte de Helena uma perversão que ela não pode ter, e que, em tal idade, faria dela um monstro. Será Helena esse monstro? Se o fosse, eu desesperaria da natureza humana. Não! essa casa, onde a viste entrar, é com certeza asilo de miséria: o que ela aí vai levar é a esmola e a compaixão.
Um raio de esperança alumiou a fronte de Estácio. O raciocínio do padre era exato, e por mais perigosa que fosse a situação revelada por ele, já agora não se podia desejar outra coisa; a dignidade da família ficava intacta. Estácio refletiu largo tempo no que acabava de ouvir. Mas a esperança foi curta, embora a necessidade dela fosse grande.
Helena continua recolhida? perguntou o padre. Estácio fez um leve sinal afirmativo.
Falar-lhe-ei amanhã; por hoje convém não dizer palavra nem deixar transpirar coisa nenhuma.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.