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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

O futuro continuador das Memórias da Rua do Ouvidor (na hipótese de que ela venha a tê-lo) terá muito que escrever sobre este quarteirão que deixo sem nota, e que desde três lustros tanto lustre tem adquirido, e que de tantas notas pode ser objeto.

Dois fatos marcaram o seu florescimento que é do nosso tempo.

O primeiro foi a vizinhança do Alcazar, depois chamado Teatro Lírico Francês, que se fundou na rua então ainda denominada da Vala, e muito próximo da Rua do Ouvidor.

O segundo foi a instituição dos carros urbanos, a que o povo deu o nome de bondes, porque o seu serviço começou meses depois que o Visconde de Itaboraí, Ministro da Fazenda, realizou em 1868 a operação financeira de emissão de bondes, de que muito se ocupou pró e contra a imprensa.

Às linhas de bondes de Botafogo e das Laranjeiras com seu ponto de partida inicial e de chegada terminal na Rua de Gonçalves Dias quina da do Ouvidor seguiram-se mais tarde as de Vila Isabel com seu ponto de partida e chegada na Rua da Uruguaiana junto da do Ouvidor.

Ora, bastariam os bondes nos dois extremos desse quarteirão estéril no passado para torná-lo florescente e com certeza rico de episódios romanescos que amenizariam muito as memórias do tempo.

Antes, porém, dos bondes, o Alcazar já tinha eletrizado muito este departement da França da Rua do Ouvidor.

As cantarinas do Alcazar, artistas indefectivelmente arteiras, freqüentavam de preferência o quarteirão, onde muitas tinham o seu quartel, ou como andorinhas faziam o seu verão.

Não ponho mais na carta, porque dos princípios tiram-se as conseqüências.

Tenho a cair-me do bico da pena uma enchente de reflexões, mas, para não amolar demais os meus companheiros de viagem, limito-me a escrever breves palavras, que são de irresistível impulso.

Maligna foi sob todos os pontos de vista a influência do Alcazar, venenosa planta francesa que veio medrar e propagar-se tanto na cidade do Rio de Janeiro.

O Alcazar, o teatro dos trocadilhos obscenos, dos cancãs e das exibições de mulheres seminuas, corrompeu os costumes e atiçou a imoralidade.

O Alcazar determinou a decadência da arte dramática e a depravação do gosto.

O Alcazar francês propagou o seu veneno em Alcazares de maculada língua portuguesa, que se foram chamando - Jardim de Flora, Cassino (o antigo, pois que honra lhe seja feita, o artista Furtado Coelho no seu Cassino sabe resistir à peste) e outros malchamados teatros.

A minha censura não é tão cruel que negue perdão a empresários e artistas dramáticos (alguns de merecimento real) que se abatem e se amesquinham, servindo à depravação do gosto do público; eles são todos pobres, querem viver, querem pão, não podem prescindir do pão cotidiano, e já fazem muito, quando evitam as indecências da cena corrompida com o recurso de dramas fantásticos e mágicos.

A influência epidêmica, perniciosa, palustre do Alcazar foi tal, que o Rossi e o Salveni tiveram no Rio de Janeiro algumas noites quase sem público, e que para não lhe acontecer o mesmo, foram precisos a Ristori todo o prestigio de seu sexo e todo o opulentíssimo e inesgotável tesouro do seu gênio admirável e da sua profunda mestria artística.

João Caetano dos Santos, o inspirado, o sublime adivinhador dos segredos de arte de Rossi e de Salvini, João Caetano, verdadeiro gênio do teatro brasileiro e grande triunfador do nosso palco dramático, morreu felizmente a tempo para não morrer desesperado, em face das preferências dadas pelo público às obscenidades de trocadilhos, ao cancã e à seminudez das artistas arteiras do Alcazar.

E o satânico Alcazar, que debalde corrigiu depois em parte as exagerações do desenfreamento cênico, deixou-nos até hoje, e nem sei até quando, sem teatro dramático nacional, ao menos regular.

Talvez que alguns pensem que a lamentável falta de bom teatro dramático seja de pouca importância.

Positivamente assim não é.

No teatro pode-se tomar o pulso à civilização e à capacidade moral do povo de um país.

O teatro é coisa muito séria. É a mais extensa e concorrida escola pública da boa ou da má educação do povo.

E agora reparo que, discorrendo um pouco sobre o Alcazar, meti-me em assunto que é estranho à Rua do Ouvidor.

Hão de dizer que é penúria de matéria.

Enganam-se.

Se eu pudesse escrever tudo quanto sei da Rua do Ouvidor, encheria dois ou três volumes, e ainda me ficaria que dizer.

Vou dar uma prova:

Já declarei que o quarteirão por onde estou agora viajando com os meus leitores não me apresenta casas célebres no passado, nem tradições ou reminiscências curiosas.

Pois bem: acho excelente o lugar e o ensejo para contar uma história um pouco melindrosa, cujo desfecho se passou em uma casa de modista da Rua do Ouvidor.

O que porém não direi é o nome da modista, nem onde era a sua loja, e muito menos incorrerei na indiscrição de indicar o ano em que se deu o caso.

(continua...)

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